quarta-feira, 28 de março de 2007

Concretinismos

A musa que nunca vem
Quando eu quero que venha
a faísca celeste que chamamos
de inspiracao
capturar o momento e nao deixa-lo
esmaecer
as vezes quase desisto
e voce chega
botando as ideias mais estranhas
em minhas entranhas
-
Os corvos que se julgam
e se condenam
o jogo de golf interminavel
homens que procuram a lua
e tentam agarra-la
do alto de prédios
um trem para lugar nenhum
a tesoura em minha mao
corta teus cabelos
voce nao liga
meu fim entre tuas pernas
ah, pena, fria
acabou-se a poesia
(depois que a gente fode
eu te largo;voce foge
e deus sabe se vai voltar)

segunda-feira, 19 de março de 2007

Peixes e Pássaros.

Em seu velho caderno ela escrevia. Nossa, e como escrevia! O caderno já estava quase acabando, lotado com seus textos, seus poemas, seus segredos.

E ninguém nunca os lia. Ninguém. Ela não deixava. Quando alguém pedia para ver o que era, simplesmente desconversava. Mas então, por que continuava escrevendo? Não sei, ora, pergunte a ela. “Por que você escreve?” “Não sei...”. Simples assim. Escrever estava no seu DNA, nos dedos, nos olhos, no couro cabeludo, enfim, cada célula dela era voltada ao ato de escrever. E tudo isso aos quatorze anos.

No começo, escrevia contos de fadas, historias fantásticas sobre princesas e castelos. Até que conheceu o amor. Quando isso aconteceu, os contos de fadas passaram a incluir príncipes e plebeus apaixonados, cavaleiros valorosos salvando suas donzelas. Conheceu a rejeição, e com isso esqueceu os contos de princesa e passou a escrever tristes poemas e histórias. Eis uma delas:

“Um pássaro voava livremente pelo céu azul de seu globo de vidro. Gostava disso, sua vida era passar dias voando pra lá e pra cá. Um dia, meio que sem querer, olhou para baixo e viu um belo peixe nadando. Apaixonou-se na hora. Mas havia um problema! Em seu mundo uma grossa camada de vidro sapara os céus, dos pássaros, dos mares, pertencentes aos peixes.

Não agüentando, voou até o vidro e lá pousou. O peixe, sua amada, nadou até a superfície para ficar perto do pássaro. Assim eles ficaram, ‘namorando’, pelo vidro. E foi bom por um tempo, mas a bela ave queria mais. Queria sentir sua amada junto a si, não só sentir seu calor por uma placa de vidro! E nesse desespero ele começou a bicar o vidro. Bicou, bicou, bicou, bicou até seu bico ficar totalmente desfigurado e sangrento. Assustada e preocupada, a peixinha o mandou ir embora, ‘para o seu próprio bem’. E nadou para o fundo.

O pobre pássaro não podia ficar mais triste. Voou, voou, voou o mais alto que pode. Seus amigos gritavam ‘Não faça isso!’ ‘É bobagem!’ e ‘Não ia dar certo mesmo!’, mas ele não deu ouvidos, e se jogou lá de cima. Caiu rápido como uma bala, o corpo tenso e determinado, os olhos fixados no fundo do “poço”...

Morreu na esperança de quebrar a barreira que os separava.”

Triste, não?

A menina cresceu, é claro, como todos eles crescem. Aos quinze anos, esqueceu seu caderno e conheceu a aceitação no amor. Estudou, fez medicina numa boa faculdade, casou, teve dois filhos, se divorciou.

Era uma medica bem sucedida. Nem de longe lembrava a menina de quatorze anos que escrevia. Tinha o cabelo curto e andava firmemente pelo seu hospital. Nem de muito longe lembrava a menina que se perdia num mar de cabelo castanho e andava engraçado, meio tímida, meio desengonçada mesmo.

E hoje ela está morrendo numa cama. Já haviam suspendido a quimioterapia há algum tempo, seus cabelos já haviam crescido um pouco. Irritou-se, levantou-se da cama e foi olhar suas coisas velhas. No meio delas achou um velho caderno.

Deitou-se e abriu-o aleatoriamente. Caiu na pagina dos peixes e dos pássaros. Leu, riu e disse em voz alta:

“Heh... Quem sabe se eu tivesse voado um pouco mais alto antes de me jogar no vidro... Talvez eu tivesse quebrado a maldita barreira...

Mas agora é tarde...”

Como eu sei disso? Eu estava lá. Eu estava ao seu lado, li com ela seu conto, ouvi suas ultimas palavras e a levei comigo.



***

Ah, crianças... se lembrem de sempre se jogar do ponto mais alto, tá?

terça-feira, 13 de março de 2007

3 poemas

- Castela

Ah, a saudade gostosa
dos tempos antigos
me aperta tanto nesses dias frios
A falta da baderna noite afora
dos lugares que fomos e tudo que vimos
sem nem cruzar a porta
do quarto
Eramos tantos, e agora
o que sobra?
A dor amada no fundo da boca
o gosto amargo de meus dedos
a falta de ar na caixa do peito.

Melhor seria ter ficado em casa
que admirar o mar que nao vemos
o pulso no compasso, o pulso no compasso
o pulso no compasso das ondas que vem
esperando nos tragar
Já que as vozes já nao chamam
vou-me embora; minha coroa
vou buscar. Besta é que sempre
vou levar
Ah, a saudade gostosa
dos tempos antigos
(que tanto me apertam nesses últimos dias)
Que tanto me aperta nesses dias frios

***

"Além do mais, sei que tem algo lá;
Algo grande me esperando
Já vejo na distancia
aquela estrada dourada
mas nao serei eu tal qual Quixote
por embarcar em tal empreitada?
Nao importa.
Que venham os moinhos
e os derrubo como gigantes,
que minha febre é enorme
e minha fome, maior ainda.

O mundo, é, o mundo inteiro, ainda vai ser meu."

***

Se eu saio voce chega
se aconchega e espera
que eu caia do céu.

Pois eu fico é com medo
que se perco uma hora ou outra
que eu caia do céu!

E todo dia é uma bagunca, um aue
que eu nao te amo e sei la mais o que

mas que posso eu, que trabalho
de noite de dia de dia de noite
só pra por comida no teu prato
e se mereco estar ao seu lado
é que sou rapaz direito, prendado

Pois é, nega da lingua solta,
pode se acostumá'
Passa essa garrafa pra cá
que a agonia hoje é outra...

terça-feira, 6 de março de 2007

Fábio Frohwein - "Um… dois… três… quatro…"

"Um…
dois…
três…
quatro cuzinhos…
Uma…
duas…
três…
quatro xaninhas…
Meu Deus, por que zombais
de mim com tanta fartura,
se sabeis que sou brocha?"

Fábio Frohwein nasceu em Salvador. Formou-se em Latim pela UFRJ, onde ainda cursou a Especialização em Literaturas Africanas e o Mestrado em Literatura Brasileira. Ganhou vários prêmios literários nacionais e internacionais, com destaque para o Prêmio Internacional de Contos Graciliano Ramos e Prêmio Adolfo Aizen (UBE). Publicou em 2000 o romance A conjuração carnavalesca e em 2003 o infantil Eusou e o Chapéu, além de ter participado de antologias de contos e poemas. Atualmente cursa o Doutorado em Literatura Brasileira pela UFRJ e leciona na Graduação e Pós-Graduação em Letras da Universidade Estácio de Sá. Escreve o blogue Pasta de Rascunho.