sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O Demônio em branco

Ah...as reticências, que delicioso recurso literário! Nada me fascina mais do que reticências. Dizem tudo e, não dizendo nada, te forçcam a pensar. Que presente lindo você me deixou!
Enquanto isso, a arvore fugia com suas coxas grossas envoltas em gastas meias-calças.
Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela.

E sempre achei que havia um demônio aprisionado nas folhas daquele caderno. Era velho, e já amarelara há tanto tempo que sua decrepidez parecia algo natural. Não havia linhas nem nomes, nada que o indentificasse como antiga posse de alguém, mas desde sempre estivera na estante. Sua capa dura de tecido desbotado lembrava o dorso de um magro cavalo pardo; você poderia sentir as costelas e, de quando em quando, a sua penosa respiração. Era, sem dúvidas, um ítem mágico, um tomo de feiticeiro, uma bíblia dos corcundas e putas. O único fato que me fazia descartar tais possibilidades era a já mencionada solidão das páginas que o formavam. Nem uma gota.
Até o dia no qual criei coragem; muni-me da pena e do nanquim, à fim de enfrentar o demônio das páginas em branco.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Musica inacabada

"E eu me fartei de procurar
as perguntas certas
pra respostas erradas."

(...)

"Nem tudo que acaba começa,
mas vou indo nessa
pior é não tentar."

(...)

Por que alguém vai pra cidade se de lá não dá pra contar estrelas?

domingo, 5 de agosto de 2007

Descoberta #4

Ciúmes. É , há dias em que ele ataca do nada, corroendo o espaço entre as orelhas e a nuca, queimando lentamente. Eu que nunca tive nada disso aprendi a tê-lo em três tipos, três vertentes, um amais estúpida que a outra. Preciso explicar quais são? Lógico, tem gente que tem preguiça de pensar, mesmo que, provavelmente, só existam esses três tipos mesmo, três vermes cavando meu peito, tentando envenenar a razão e o coração, quase conseguindo. Mas passando longe de meus testiculos, intactos, estão sempre na mesma, os mesmos impulsos, desejos, imposições, injeções de hormônio que pouco me animam (melhor que nada, não?), pouco me animam. O amarelo ciúme do que já tive não tive já tive mas não tive; o vermelho ciúme do que ainda teria; e o mais ridículo, o do que está por vir não vem quem sabe(?). Todos os iconoclastas que vieram antes de mim me ajudam a potencializar tais sentimentos, mas agora que penso no assunto, eles nem pediram licença pra entrar. Vai entender.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Descoberta #3

Por favor, olha, eu só quero o melhor pra voce. É tão difícil entender que tudo isso é só medo? Sim, medo, a gente também sente medo, pra caralho. Medo de que vocês acabem virando algo que nunca quiseram ser. Medo de ouvir que se arrependeram. A mediocridade não é algo que você nota, não, ser mediocre não dói nem fere ninguém. Só nós dois.
Mas o problema é que ninguém me perguntou se eu quero ou não ser medíocre, à meu modo. Quem não é medíocre? Seja você por ter sonhado baixo, ou eu por não ter sonho nenhum. Mas, não é por não tê-los que vou deixar você enfiar algum dos seus velhos, não realizados, goela abaixo, estuprando minha alma. Não, prefiro o silêncio. Talento, você diz? Que talento? Que vôos posso alçar, que ningué mais tenha alçado antes? Não importa mais, nem um pouco.
Minha boca se cala, anopsia verbal, dê meus olhos aos chacais, que diferença faz? Já sinto os dedos frios, elétricos, de minha querida, aquela que espero há um bom tempo, envolvendo meu pescoço, me tirando do fosso, mas não, não há, de novo, nenhum cantador. Só o som das vírgulas me enlouquecendo.