domingo, 6 de janeiro de 2008

Reveillon

"O último dia do ano é algo estranho..." pensou Dado, sentando-se na areia branca, estranhando a multidão saltitante à sua volta. Branco. Não aguentava mais ver gente de branco. Nem sabia por quê ainda insistia em sair na noite do dia 31 de dezembro. Tudo lhe parecia repugnante, e o barulho feria seus sensíveis ouvidos. "afinal, é mais um ano perdido na corrida para o final. Por que comemorar?" pensou, estourando sua champanha vagabunda, tentando, melhor, lutando contra o ímpeto de fazer de sua rolha um projétil e arrancar o olho de alguém. Tomou um longo gole da bebida espumante. Doce demais pro seu gosto. Por que não estourar garrafas de uísque? A visão de um reveillon negro regado à uísque o reconfortou por alguns segundos, até que o segundo gole lavou embora seu ensaio de um sorriso. Na longa faixa de areia, era talvez a unica pessoa sentada e sozinha. Não que não tuvesse com quem estar, só que, normalmente, preferia estar só. "Mais um dia, mais um ano. Não fosse a folga nem reparava que era fim de ano. Merda. Uma semana de folga, onde já se viu..." Esperou. a contagem regressiva, os pulinhos culminando nos animados brados de "Feliz ano novo!" e a queima de fogos. Cinco minutos e ainda estouram no céu, com todas suas luzes, suas cores. Então, nem seus mal humorados olhos deixaram de perceber a beleza do espetáculo, As fagúlhas caíam como borboletas em chamas, douradas, azuis, vermelhas, tudo ao alcance aparente de suas mãos.
Estende o braço e, num rápido movimento, captura uma mariposa (sim, pois é noite! Como haveriam de ser borboletas?). A pele da palma derrete um pouco, o leve aroma acre e quase imperceptível de carne queimada. A dor quase não incomoda, é aguda, pulsante, mas nada demais. Abre a mão e vê que a mariposa não passa de um pedaço de algo indefinido, agora grudado à sua mão. Não é a dor que lhe incomoda, não é, mesmo. Mas uma pontadinha de decepção.
"Quase me enganam. Merda de ano novo." O terceiro gole o faz desistir.