segunda-feira, 16 de junho de 2008

O rádio


Entro no quarto e ele está lá. A pouca luz que passa pelas cortinas ilumina suas rugas, seus cabelos brancos e ralos, os anos em suas costas. Como devem pesar! É um homem pequeno, e a enorme carga curva seus ombros, tenta favorecer a gravidade e entregar-lhe ao solo frio. Mal ouço meus pensamentos, o barulho lá dentro é absurdo. Ele está sentado na cama, os olhos, que já foram azuis, fixados catatônicamente no rádio, ligado no volume máximo. Toca um velho bolero... Reloj, no marques las horas, porque voy a enloquecer... acho que é Lucho Gatica. Ele não percebe que estou aqui, não ouviu a porta abrindo e depois batendo, forte, por conta da corrente de ar horrível que se forma nesse apartamento vazio. Vivemos aqui só nós dois, eu e o preto velho. Não é ruim, mas me sinto extremamente solitário a maior parte do tempo. Principalmente quando ele faz isso, e o faz praticamente todos os dias. Senta na cama, liga o rádio no máximo e fica por lá horas, olhando, os olhos umidos por detrás dos óculos de aro fino. Alguém me disse uma vez, não me lembro por quê, que era coisa de maluco assistir ao rádio como se assiste a uma televisão, que sua audição não melhora só porque se está olhando diretamente para as caixas de som.
Mas meu avô é surdo, e sente uma saudade filha da puta de ouvir o rádio.