domingo, 20 de dezembro de 2009

Tocaia pequena

Eu gosto mesmo é de ficar de tocaia,
só esperando teu coração passar.

Deixe pra ver o que acontece
no dia que eu pegar nele
de faca na mão!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Quero ter um caso

Seria ótimo se fossemos amantes de vez em quando. Eu viajo até aí escondido, prometo usar uma flor na lapela. Mesmo que eu não tenha lapela alguma. Você vai usar óculos escuros gigantes para ninguém te reconhecer. Mesmo que você tenha perdido teus óculos. Use um lenço na cabeça, uma blusa de gola alta, mesmo que esteja um calor horrendo. O importante é se esconder. Nos encontramos naquele café que fica meio longe do centro. Você vai estar sentada, com uma xícara, e vai sorrir quieta quando eu disser que não sei por quê nos encontramos alí, já que eu odeio café. Acendo o cigarro que você odeia. Ainda sem dizer palavra, você me beija, eu peço a conta. Você me mostra a parte estranha da cidade, até ficarmos com sono, ou de saco cheio, ou sem assunto. Você sabe que acontece. Daí você sabe o que acontece. Aperte minha mão se quiser que eu vá embora. Me abrace apertado se quiser que eu fique um pouco mais. De qualquer jeito, mais hora menos hora vou entrar no ônibus e enfrentar horas de viagem, só pra ficar longe de você. Só pra ficar com saudades de você. Pra daí fazer tudo de novo.
Só vamos descobrir que enganamos um ao outro com nós mesmos depois de anos de affair.

sábado, 28 de novembro de 2009

Mofo.

Adoro o cheiro de mofo que tem meu quarto na casa dos meus pais. Apesar da minha alergia severa (que faz com que o tempo todo que eu passe aqui, eu passe espirrando e tossindo feito um pobde diabo que cheirou pimenta do reino), é um cheiro reconfortante, quase uterino. A cama já foi melhor, mas o lençol, intocado a semanas, me aconchega como o colo de minha nêga. Poderia passar dias dormindo aqui, sem interrupções nem remorços. O silêncio de subúrbio do interior pesa em meus ouvidos, é como ouvir uma lingua que você domina, compreende fluentemente, mas não escuta há anos. Deve fazer uma semana ou outra que não ouço o silêncio, mas pombas, ele me faz uma falta tremenda lá em casa! Pra que fizeram das cidades grandes enormes maracas a pipocar estridências sem parar? Aqui ouço cada grilo no quintal, cada sapo no terreno, cada moto na distância.
Mas sim, estava falado do cheiro de mofo.
Não é como se isso significasse que perdi meu espaço no lar, que ninguém mais cuida ou limpa (d)esse canto da casa. Não é nem um pouco isso. Tudo bem que não veja mais minha presença nas paredes (se é que, nesse quarto, já houve isso um dia. No outro, que dividia com os irmãos, talvez). Tanto faz. O fedor,na verdade, vem das lembranças em papel, trancadas no amplo armário de madeira nobre e escura, me lembrando dum passado bom, que me serviu de escada ou ladeira para chegar onde estou. Vejo no rastro desse mau cheiro uma pontinha do teu perfume.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

(sic)

O que se esconde nos âmagos? (os nove circulos enterrados)

E foi como se tomado de assalto que me percebi alguns degraus abaixo do nível do mar. Foi só quando percebi que a respiração estava fácil, que ventava um bafo morno, que meus ouvidos tinham se aberto. Foi a lucidez ao olhar pra cima e perceber as ondas batendo calmamente nas pedras que antes pareciam tão pequenas. Foi respirando fundo e segurando o ar com força para tentar desfalecer, apagar por um instante. Um movimento acertado e a vertigem tomaria conta de mim e aí já viu. Se estou tão baixo, o equilibrio é completamente desnecessário. Todas as forças da natureza e das leis da física estão jogando a meu favor. Tentam me salvar, tentam aguçar meus sentidos, tentam me causar calor, tentam me manter aqui em baixo, e o pior... tão baixo eu cheguei, tão próximo do centro, tentam me matar de frio. Mas eu mesmo lucido, mesmo esclarecido, mesmo cercado dos mais baixos perigos que o mundo oferece, ah, mesmo assim, eu choro, eu choro na cara desse abismo gigantesco que sozinho não consegui galgar, e choro na cara da lucidez, e choro na cara do oceano e do vento, e puxo de volta tudo que ele tenta puxar de mim. Se venta na minha cara, eu respiro fundo, pois daqui de baixo o meu sopro equivale ao sopro do capeta, e meu choro é tão estrondoso quanto um trovão. Não arriscaria nunca algumas brincadeiras - como ficar apoiado em uma perna só, dar alguns pulinhos, ha ha ha, porque se você para pra pensar direito, nem estou tão baixo assim, ainda há muito pra descer, temos muito chão pela frente. E que seja mais e mais lucido, que não quero ter que saltar os relâmpagos, ou acabar pegando jacarézinho no dilúvio, já sinto que o sol pode me apagar com seu cuspe; subamos, pois, a vertigem nos aguarda.

-

Brincadeira com o seríssimo http://docevomito.blogspot.com/2009/11/o-que-se-esconde-nos-cumes.html . Vou ouvir muito hoje.

domingo, 15 de novembro de 2009

Veremos o verão.

E a palma da tua mão me acaricia como fumaça doce de incenso, leve e breve, deixando forte teu cheiro em tudo que tem cheiro. Meu pulso, já tornado máquina, pulsa como pulsam as fornalhas dos trens de antes do nosso mundo. Um impulso.
Um impulso agora pensado. Nunca pensei tanto. E nunca foi tão bom pensar. E pesar a leveza das mil almas velhas que brigam dentro de mim por uma brecha na janela pra te dar uma espiada. As cortinas estão escancaradas nessa casa, mas a luz que entra é tanta que não se pode ver nada. Roda de neve na volta do pátio, em pleno país do fogo. O calor é pretexto, nossa desculpa do momento. Viva o verão de minha vida!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Reação

Ele escrevia poemas.
Ela não dava atenção.

Ele ligava para ela.
Ela não ligava.




Ele começou a assaltar bancos.

100

Cem postagens.
Não sei se tô feliz ou triste.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Casal #2

E nós dois ainda temos muito que resolver.
Só nós dois.





(Como escolher a cor das paredes do lar
que quero pintar
pra nós dois
só nós dois.)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Casal

Felipe e Aline são dois como se é;
Dá gosto ver como não querem mais nada dessa vida.






(mentira: jogar MarioKart melhor)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Poliglota confuso

No es estraño que te estrañes,
como no olvido el sonído
de tu voz en mis olvidos



(hay poesia en portuñol?)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Un Rato

Ela segurou minha mão,
no meio do caminho,
como se dissesse
que não queria;
Engano meu.
Queria,
mas não podia:
Pobre peito de pomba a ponto de arrebentar

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Meu Amargo Vômito


Ainda prefiro o gosto de bíle no fundo da garganta ciumenta que o mel, doce por demais, das relações que encontro nesse lugar. Pessoas não parecem pessoas, pessoas não são pessoas fora de suas casas. Não entendo, não entendo, por que? Aonde escondem seus rostos sorridentes quando saem às ruas? Por que a cera a recobrir a pele? Não entendo, não entendo. Por isso não nos visitamos no Rio de Janeiro (salvo belas excessões de amigos e amigas que, por acaso, nem são daqui mesmo). A casa, aqui, é o templo onde se despem de sua roupa de rua. De sua cara de rua. Lavam a poeira da rua e saem da casca, finalmente. E o ser humano nu é frágil, não queremos aparecer frágeis, não queremos que julguem nossos móveis ou nossas toalhas. São nossas. Quanto disso diz quem sou? Não sei. Sei que não gosto do plástico derretido na volta dos apertos de mão. Das discussões acerca da validade ou da lealdade dessa ou daquela amizade. VALIDADE OU LEALDADE DESSA OU DAQUELA AMIZADE! AMIZADE VERDADEIRA? Que enfiem no rabo. Quero seguir morrendo de ciúmes do passado, não pensar no presente e tentar viver o futuro da melhor forma possível. Estou me levantando cedo, dormindo tarde, comendo bem, amando melhor ainda. Não preciso mais do abraço frouxo e sem cheiro dessa cidade que adoro, mas que sabe ser tão mesquinha. Me perdi. Volto com outro assunto na linha abaixo:
Então. Que fazer com velhos amores de seus amores? Mesmo sabendo que esses velhos amores não se comparam aos atuais amores, como evitar que os dentes trinquem, que os punhos cerrem, que a cabeça ferva, que os pés tremam, que o fogo suba nas ventas e os olhos fiquem rubros de ódio. Estou levemente descontroaldo com relação a isso. Preciso só uma menção, a metade de um nome, para sair de controle, virar a mula-sem-cabeça, a queimar o mato no entorno. Imagens misturadas dela com ele, íntimos. Misturadas. Com sangue e pancadas. Porradas e tiros de canhão. Não posso apagar esse passado da vida de ninguém. Não tenho esse direito, esse poder, e, quando penso racionalmente, seria uma péssima idéia. Tudo é caminho percorrido, tudo é soma, tudo serve como engrenagem no encaixe de nossas trilhas. Mas porra, como ficar tranquilo quanto as engrenagens menores, sabendo que essas também são engrenagens?! Que sem elas o mecanismo não funcionaria, e, pior, saber que o sistema todo funcionava mesmo sem a peça que agora sou. É imaginar outras mãos que não as minhas. Outras bocas. Outras carícias. Ah, mente maldita, que peças me pregas, queres me matar, descontrolas meus dedos? Já não sou responsável por essas palavras, caro leitor, cara leitora, amor. Não sou. Mal sinto os dedos, tudo que sinto é fogo e ferve, como ferve, como cada vez mais afundo os dedos nesse maldito teclado que não me impede de continuar, como me impediria a caneta quebrada ou o papel rasgando, cedendo ante o ímpeto raivoso com que escrevo essas palavras de exorcismo e aversão, excretas dum trauma, Deus sabe daonde vindo. Merda, por que penso tanto nisso? Por que me importo tanto? Por não ter sido o primeiro professor? Não ter sido o primeiro em todo o resto, como foi ele? Que merda. Que merda. Sei que o mesmo se aplica a mim, mas diabos, nunca tive que lidar com essa sensação. Nunca mesmo. Tento me colocar numa outra posição, mas não funciona. Tenho apenas que me apegar no resto todo dos sentimentos bons, dos sentimentos que me põem na tua mão, e seguir, de olhos fechados e dentes cerrados, até que a raiva se estingua e me apazigue o cenho franzido. Se me odiasses tanto quanto te amo, ordenarias que me atirassem, amarrado e coberto de mel, às formigas e abelhas que me devorassem a pele pouco a pouco, para depois afogar meu ainda consciente corpo descarnado num poço de álcool. Se tu me amasses tanto quanto odeio essa situação, passaria o resto dos dias do meu lado, fugiria comigo descalça para só depois pagar a conta, deixaria que eu bebesse do teu sangue. Ai, merda, já direciono o texto, língua maldita que me lambe os dedos e guia o cego pensamento que nunca soube direito onde queria chegar.
Ao contrário do que se pode pensar, não quero atingir ninguém nem falar com ninguém. Falo com meus medos, numa tentativa de tirá-los de casa. De minha casa. Da casa do peito, da cabeça, para que triunfe, finalmente, a paz que deveria estar sentindo.

-

22 de setembro morreu Antônio Conselheiro. Perdeu canudos e a cabeça.
Matadeira não perdoa, mas não desejo esse destino a ninguém.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A tardinha vai...

Dois senhores estão sentados em cadeiras confortáveis, de madeira e vime, na calçada em frente à casa de número 43. É Agosto, mas mesmo assim faz um calor insuportável, o meio-dia fazendo a ruazinha recém asfaltada incandescer em vapores ilusórios. Um dos senhores está sem camisa e bebe, ruidosamente, duma latinha de cerveja barata, comprada no botequim do outro lado da rua. Subúrbio de interior, o senhor descamisado tem uma conta de pindura aberta há mais de dez anos, com o portuga do botequim. Portuga esse que está sentado ao seu lado, a camisa de linho ensopada de suor, as canelas a mostra sob a barra dobrada da sua calça de pregas bem engomadas. O portuga reclama, enquanto o outro bebe e arrota. Reclama do ar parado, que mantém as inúmeras árvores da rua em silêncio, como mantém a todos dentro de suas casas. Reclama também do fato de que o amigo nunca paga a conta pendurada no botequim há mais de dez anos. Quando vai pagar? Deus sabe. A vida é dura. Levanta-se com dificuldade, passa a mão sobre a barriga protuberante, desnuda, suada, amassa a latinha e a joga na calçada mesmo. Vou pegar outra. Lentamente atravessa a rua, entra no botequim, cumprimenta Dona Maria, pega outra e volta, sentando-se novamente ao lado do amigo português, que apóia o queixo numa bengalinha de bambu.
Passados uns vinte minutos, pouco mais, pouco menos, as crianças saem pra rua. Olha lá! Minha netinha já sabe andar de bicicleta, tão esperta, diz o primeiro senhor, depois de uma longa golada. O portuga assente com a cabeça, levanta-se e espreguiça-se, apoiado na bengala. A neta do beberrão passa pra cá, plec, plec, plec, as rodas da bicicleta. Passa pra lá, plec, plec, plec, clang, o portuga enfia a bengala no meio da roda da frente, a mocinha voa e cai no fervente asfalto recém colocado da ruazinha de subúrbio no interior. Dois dentes, que estavam quase caindo mesmo, e um bracinho, que depois se conserta mesmo. O gordo senhor semi-nu se levanta, berrando com o portuga. Que caralho é esse? No que o outro responde, por debaixo dos bigodes. As crianças têm que aprender que a vida é dura. O senhor amassa a segunda latinha, encaminha a neta para dentro de casa, depois senta-se, ruidosa e lentamente, para dizer, calmo. Já que a conta está quitada, va buscar mais uma lá, vá Manolo.
Ódio tremendo no bigodinho do portuga.

sábado, 19 de setembro de 2009

Mudei

Aqui seguem apenas os textos. Os desenhos e as tirinhas vão para http://dizimadizimada.blogspot.com
Eu sei, é um nome horrível. Mas fazer o que?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A maior ressaca do ano

Na véspera de mais um dos dias melhores ainda remôo o que o velho mexicano me pôs na cuca. Suas palavras são como farpas de vidro doce, como o berro duma criatura que não tem boca para berrar. E as palavras é tudo que tem. Talvez não saiba, talvez seja ironia, talvez seja só a bebida, mas eu sou tolo de levar tudo isso comigo, a sério. Não parece, realmente não parece, mas a poesia bruta, o verso falado, aquele que não pode ser escrito por brotar apenas de gargantas malditas já maltratadas pela fumaça da madrugada, vem de quem menos esperamos. Ainda bem que já esperava, se não teria caído em prantos maiores com nossas confissões.
Realmente meu caro, isso é tudo que temos, então ou nos mudamos por inteiro, ou enfrentamos o diabo com um sorriso na cara. Eu sei que seus cabelos são de um perfume que mata o homem fraco, que a face bela do capeta nada mais é que a bruxa que roubou tua alma pelo coração, sua boceta dentada te mascando a vida. Eu sei. Mas não se entregue, não se perca nessa avalanche do "tudo que temos", mas também não lute contra a maré alta e as ondas revoltas. Levanta a cabeça, companheiro de brados encachaçados, que o lixo nada mais é que o troco que devolvemos ao mundo. Faça do lixo luxo, enfeite bem os entulhos, e os entregue com os olhos vivos. Nos entorpecemos enquanto a cuca anda a solta, então fique atento.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Macroman 02


Mais uma do Macroman.

Nada como uma segunda-feira com cara de domingo. Macarronada da vovó e filmes de kung-fu horrorosos na TV com meu pai. Cura qualquer ressaca.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ditinha, a Dominatrix


Queria desenhar metade do que o Laerte desenha.



Só metade. Tava bom demais.

sábado, 29 de agosto de 2009

Profissão: Mãe de família


Dona Laura não tem jeito.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Macroman 01

Misto do Overman com um Macho-man, nascia o Macroman. Tira velha e ruim...e mal editada pra cacete.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Walter está de licença



Pode ser uma série... o que vocês acham?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ai...

Deus, essa guria hoje me fez mais mal do que bem.
Me deixou com uma angústia agúda dentro do peito, como se todos meus órgãos estivessem espremidos dentro de uma caixinha de fósforos.
Me deixou com cólicas, o abdôme fervilhando sabe-se lá com que ódio, ou com que medo.
Medo enorme me queima a fronte.
Não sei qual deles é maior.
Mas o medo hoje é tanto, que sinto vontade de evaporar,
de sumir completamente.
Medo de te machucar, te ferir, te infectar com minha vida suja;
Logo tu, tão doce, tão sua,
Tu que te esquivastes tão bem das desgraças da vida
não pode acabar com minha praga.
Minha vontade é de não te ver, até que eu limpe essa sujeira toda que me escorre da boca,
dos olhos, do pau, dos ouvidos, da pele como um todo
Me sinto sujo como nunca, e não quero que tu me vejas assim.
Que tu me toques assim.
Me perdoa, por favor. Ando fraco, muito fraco,
fraco demais para você;
O segundo medo é tão patético que não merecia ser mencionado,
mas tenho que tentar exorcizá-lo:
Medo filho da puta de te perder. De tu sumir. De que tu pares de gostar de mim.
Não posso me permitir esses medos,
mas hoje, todos me tomaram a alma de assalto.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dromedário


Texto é do Fabiano. Arte minha, mas na verdade é do Dahmer.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Tentativa frustrada #1

Cacete, fui tentar escrever um poema. É! Fazia um tempo que eu não escrevia um poema. "Metrado! Tem que ser um poema metrado! Decassílabo, como Os Lusíadas! Poema belo! Sobre o amor! Sobre um dos combustíveis do amor: o ciúme! Vamos lá." Olhe só, querido leitor, queridíssima leitora, e especialmente você, no que deu a tentativa:
"
Ciumento, você então me chama
Como quem chama o outro pra briga,
Como quem pisa a lama, e grita
Que o achado não é lama nada,
É titica. Ó, mas para, pensa,
Não faz pouco caso de quem ama,
A ti, Por favor, formosa dama...
Que pode parecer pouca merda,
Mas ciúme que a este palerma
Ataca qual poderosa chama
Nada mais é que pequena prova
Do amor que sente pela senhora.
"
O poema se escreveu sozinho, ordinário. Sem pedir licença, assim, de supetão;
Fiquei rindo como um imbecil e não escrevi mais nada.
Boa noite, até a próxima tentativa.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Garota:

Depois do susto, tudo que eu quero é poder ver essas linhas crescendo no seu rosto.
Suas mãos ficando secas e enrugadas.
Seu quadril crescendo.
Suas costas se curvando e seus joelhos ficando frágeis.
E, te digo, acho que vou adorar cada fio de cabelo branco na tua cabeça.

Só resta saber se, eu sobrevivendo, você vai me aguentar, vai me aturar, com as neuras multiplicadas, mais rabugento que nunca.
Espero que sim. É difícil prum velho subir numa árvore pra te ver trocando de roupa. Olhos míopes não servem para binóculos, e se já sou meio surdo agora, vai ser impossível tentar ouvir suas conversas a distância.
Então me mantenha por perto, minha nêga.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Como diria Manu Chao...

"Pará de bebê?
No páro.
Pará de fumá?
Também.
Amigo, páro?
No páro.
Só se me levam pá FUNABEM.

(...)

O día que voy morrír,
Eu quero em mía sepultura
trecientos llítros de cachaça
sem mistura!

Pará de bebê?
No páro.
Comê salgadiño?
É ruim.
Amigo, páro?
No páro.
Só se me levam pá FUNABEM."

Pobre diabo

Tenho um amigo que está sendo moldado. Mudado. Pobre diabo. Sendo açoitado por milhas e milhas de pedras, tendo que correr não sabe de quê, tendo que se cortar todo para se reinventar.
Seu algoz o quer, mas não como ele é agora. Seu algoz o persegue, noite adentro, em abdominais, sonhos, ataques epiléticos, batidas de portas e de outros atabaques.
Tenho um medo que está sendo moldado. Mudado. Pobre diabo. Sendo testado por dias e dias de sol e chuva, tendo que se adaptar a deus sabe o quê mais, tendo que se esfacelar todo para me reinventar.
Eu quero esse algoz, exatamente como ele é agora. Algoz que me persiga, noite adentro, entre suores, pudores, ataques epiléticos, batidas de portas e outros atabaques.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Para quem quiser

Dói crescer em cidade pequena cujo nome não serve nem para fazer poesia.
Dói não ter sofrido para ter sobre o que escrever.
Parece idiota, mas
Parece, na verdade,
Que espero a vida inteira pela tragédia que vai impulsionar o romance,
A escrita,
O relato exato duma vida que mereça ser lida.
Tenho ânsia de guerra; não me adapto ao cotidiano de escrever nada sobre o nada.
Escrevo com ânsia. De vômito.
Não precisamos de mais nada.
Não precisamos mais de nada.
Não precisamos de nada.
Guerra de dentro.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O mundo é dos que falam, não dos que calam.

Que poder leva o tímido no peito!
Que poder leva o tímido adiante?
Que o impede de calar pra sempre?
Que o impede de falar quando precisa?

Por que se esconde, dentro de cada extrovertido, o pequeno veríssimo que não quer ser visto?
Por que se esconde, dentro de cada introvertido, o mistério do mundo que não vemos?

Os solitários entendem.
Obrigado Dahmer, agora sei. Os solitários sabem.
Coisas que só quem passa muito tempo consigo mesmo sabem.

Obrigado pelo presente feio, mesmo que eu não seja lá a pessoa bonita que o mereça.

-

Levo o mundo todo dia, mas você não vai a lugar nenhum.
Deixe, deixe que os que falam cantem, deixe que o bêbado grite, deixe, ele tá bêbado mesmo, não dê atenção às verdades. Deixa ele falar, fala!
Que o mundo não é dos que calam.
POBRES OS QUE CALAM! POIS SÃO VISTOS COMO FRACOS! O mundo não é dos que respeitam os corpos alheios. POBRE DOS QUE CALAM! POIS SÃO VISTOS COM ESTRANHAMENTO ENORME! O mundo não é dos que se importam com a vontade alheia. POBRE DOS QUE CALAM! POIS É DELES O REINO DOS CÉUS! Mas lhes são negadas as delícias da carne. POBRE DOS QUE CALAM! Pois morrerão com seus segredos. POBRE DOS QUE CALAM! Por levarem o mundo no peito.

sábado, 20 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Semear

Com as sementes da família, desperdiçadas sobre meu ventre nu, é que quero, contigo, semear os frutos do fim da frustração.
Não é assim que vão nascer, nem do cultivo pesado ou dos enxertos de carne que poderia fazer em ti. Nada cresce se esperando deitado. E é bom, vez por outra, sob a sombra desse ventilador. Mas não só.
Quero passear sobre esses campos inglórios, quero pisotear velhas gargantas, quero, contigo, calar a frente de outro mundo qualquer e poder pensar "Ei, não tenho medo".
Quero, contigo, calar pra sempre. A frente de outro mundo. E poder pensar.
"Ei, não tenho mais medo".

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pedaço de Fantasmagoria

Caí pra dentro do oco do peito:
Perigo brabo de se tê-lo aberto.

-


Procuro a saída na luz lá de cima
Bobagem; A luz vem de dentro.

-

No fim, cá estou em casa,
O fundo do poço já me espera com meu catre,
Meu travesseiro, meus retratos na parede.

-

A mente, se solta, tem o problema de se prender, fácil, em qualquer lugar.

-

O coração, se preso, tem o problema de se interessar, fácil fácil, por outras prisões.

-

O ventre, se preso ou se solto, tem os problemas iguais de foder o resto da vida.
Digestão tem medida.

-

"Devora-me, ou te decifro!" disse o velho mexicano.
Com medo de me ver aberto, dei-lhe uma dentada.

Recado

E a você, mundo, ofereço este coração que mal bate
Estes pulmões que chiam
Esta boca que late
Estes dentes que mordiam
Estes intestinos preguiçosos
Estes olhos que ardem
Estes ouvidos penosos
Estes cabelos que caem
Este fígado cansado
Estes rins sobrecarregados
Este estômago inchado
Estes ossos remendados
Estas juntas que rangem
Este nariz que não entope mais
Estes dedos que tremem
Este pâncreas...que eu não sei o que faz.

Me deixa só o miolo, pra de vez em quando pensar.
E os culhões, dos quais preciso muito pra te enfrentar.

(Ou eu me entrego ou já era, cansei de tentar me tapar)

Perdoe a falta de talento.

Mas é isso.
É.
É, caro amigo. Fico soterrado
Debaixo de tantas ânsias trêmulas
E ansiedades extremas
Tão imbecilmente preocupado
Com tudo que pode dar errado
Que prefiro seguir nas estradas mesmas
A me aventurar pelo descampado
Desconhecido campo estrelado
Que os olhos dela desenham no chão.

Me ensine, então, a adorar!
Se na sujeira de meus lençóis
Esqueci vazio o altar,
Me mostre como então voltar
Ao calor daqueles dois sóis
qu'ela insiste na cara levar,
Aqueles que só eu posso olhar
Quando estamos a sós
Sem ter o risco de me cegar
Por me serem frios, focinho de cão.

Me obrigas a usar a palavra errada
A rima marcada
A frase forçada,
Quase vioentada
Nessa toada
De repente e de nada
Como é nada, agora
Minha vida passada
Ou assim espero que seja
Ou assim espero que me veja
Pra não entrar nessa peleja
Com lanças quebradas de outros carnavais.
E digo mais:
Amanhã passaremos, talvez, por seus quintais
Que, apesar de serem apenas um,
De tão vazios me parecem tantos mais a mais.

...

Perdi o fio da conversa.
Talvez, a próxima pergunta era:
O que te faz tão diferente de mim,
Quando temos os nervos tão afim,
Que te faz ver além do vulgar,
Que não consigo largar?

...

Termino agora, que a noite é alta.
Concordarias comigo que um copo,
nessas horas,
faz falta
Pra dormir mais depressa,
Pra acordar, talvez, noutra vida,
E não nessa.

(Sendo eu, eu mesmo, mas sem tantos alfinetes
do lado de dentro da cabeça)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Soneto (perneta) a um amigo

Que pensa agora meu amigo, que se revira de cama em cama no mesmo quarto?
(ou seria de quarto em quarto na mesma cama?)
Até onde vai tal esperança, meio mundo afora e de volta?

Que fazer quando chegar sua ama; não estará dela farto?
(ou estaria farta, de nosso querido amigo, tal ama?)
Até onde não se transformará tal amor em revolta?


Por que me finjo preocupar mais com ele que comigo;
Fujo de quem? Deles, ou de mim mesmo?

Não que não sejam possíveis tais sentimentos pelo amigo,
Mas parece besteira tentar achá-lo, quando eu me encontro à esmo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Querido amigo com problemas:
Saiba que eu sei dos seus, muito embora duvide que você saiba do que falo.

**

Outra: Me encontraram, dia desses, na cama com um homem.













Tive que deixar o papo comigo mesmo pra depois.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Nova

Ai, pronto.
Foi-se o motivo pra tanto texto.
Agora, fica a ansiedade,
que não serve, nem um pouco, pra fazer poesia.


Ainda bem.

domingo, 1 de março de 2009

2º Flagra

30 - 11 - 2004
"- Não me deixe afogar.
- Eu não vou...
- Então solte a minha mão. vai acabar me puxando."

sábado, 21 de fevereiro de 2009


Celulose. Filme, filme, inflamável filme. A coisa mais inflamável do mundo, e tu continuas aí, imutável, me zombando enquanto me acabo em cinzas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Pornô



Olha. Pornografia. Porno. Grafia. Palavra de derivação grega. Grafia, escrita, essa todo mundo sabe. Porno. πόρνη. Porné. Prostituta. Prostituta. Escrever sobre prostitutas. Como que, em tantos anos vendo pornografia de tudo quanto é jeito, a torto e a direito, nunca parei pra pensar nisso? A escrita das prostitutas. Tudo soa tão mais sujo agora, tão mais...feio, machista. Não que eu tenha algo contra o machismo, longe de mim. Alias, ainda acho que é uma arte que está se perdendo. Mas é feio. Estéticamente horrível, o machismo. E covarde.
Afinal, a moça se fode sozinha, ou o pau ali não seria, também, um comprado?

(Caso clássico. Meu irmão mais novo diz, no meio do jantar, "Ei, já sei, vou fazer vestibular pra prostituto!". Todo mundo ri. Minha priminha...)

Sobre a minha priminha ninguém escreve. Poucas prostitutas escrevem. As que li, trepavam muito bem. Já escrever...
Mas, mesmo com essa escassez de apoio às suas origens, a pornografia segue,pelas mãos de homens que as usam muito mais do que deveriam.
As mãos, digo.

Veja. A mão. A culpa. A morte.
Vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Alarme Falso.

Estávamos os três, de novo, sentados naquela mesa de bar. O bar não era o mesmo, mas a mesa era. A mesma de tantas outras terças-feiras: nós três, umas quinze garrafas de cerveja no meio de uma dose ou outra de rum, cinzeiros cheios. Conversávamos, de novo, o de sempre. Como era belo o comunismo, como não dava certo, como era horrível ter vinte anos e não saber nada da vida, como arranjávamos desculpas para não fazer nada. E isso era uma desculpa para nos sentirmos melhores. Ao expor o erro, esse parece sumir; mas não. E não sabemos disso, até hoje.
Foi no auge da conversa que chegaram. Duas figuras sujas, acabadas pela cidade. Um gordo, outro magro, mas não era cômico. Chegaram devagar. "Ei, você...me arranja um cigarro, por favor?", pediu o magro. Carregava um saco de latas, e tragou fundo o cigarro que o da ponta oferecia. Matutou, olhou pra cima, coçou a barba... Não esperávamos a pobreza tão de perto, depois de tanto falar dela.

"Amar é transformar as penas em sorriso...
Amar é transformar o inferno em paraíso...
O amor embala a vida quando é puro,
O amor conduz à morte se é perjuro...
Eu quero ser feliz - serei um dia!
Eu quero ser amado - serei um dia...
Porém, amado com toda sinceridade...
Qur mentira de amor, ah, não é amor, é falsidade..."

Num repente nos presenteia o gordo. Recitou como quem não quer nada, se enfiando pelas cadeiras, mirando o horizonte no fim do balcão. Alguém agradece, oferece uma cerveja. Ele toma com gosto, enquanto o magro tenta lhe puxar pelo braço. "Vambora, é tudo roquêro, eles não gostam disso não...". O gordo respira fundo. "Roquêro? Ouve essa então... Hey Jude, don't be afraid...". Ah, que susto besta! A pronuncia corretíssima, o ritmo conhecido...é uma pena saber mais de Lennon que de Barroso, mas assim é. Ficamos mais animados que com a bela poesia que veio antes. O papo cresceu, e o mendigo já tinha um copo pra si. Descartável, que dono de boteco não é santo, mas tinha. A impaciência do magro crescia a medida que o cigarro ia acabando, e na medida que íamos nos divertindo mais com as pérolas musicais oferecidas pelo mendigo gordo. Até que acaba o cigarro, bituca no chão, ele chama. "Vamo nêgo, vambora".
"Ei, toma esse dinheiro aqui". Eram dois reais. Dois, menos que uma cerveja daquelas. O gordo segurou a nota por uns dez segundos, até que seus olhos se enxeram levemente de lágrimas. Choroso, empurrou a nota de volta na mão branca e macia de meu amigo. "Guarda teu dinheiro, moleque, guarda. Com isso tu compra um pão pra tu que é melhor, que não quero dinheiro não. Tu não sabe como é ruim ficar sem saber da gente. Ninguém olhar pra gente, ninguem falar da gente com a gente sobre a gente, nada...Que eu trabalhando de pedre'ro caí do telhado, e fiquei pra mais de dois dias lá jogado, com as costela quebrada, os ossos tudo doendo, até que alguém foi me ver. Se tu quisé ajudar mesmo, leva uma quentinha amanhã debaixo da marquise do supermercado alí, lá pras oito hora, que é o melhor que tu faz. Tamo lá direto, e comida é qeu é o bom, viu? Guarda teu dinhero, compra um pão e passa lá...". Imagine a cara de idiota dos três ao ouvir essa confissão. O magro abarcou o gordo com um braço, e, consolando-o, foram andando calçada afora. Não sem antes pedir um último cigarro, não sem antes nos lembrar aonde estariam instalados. Pensamos que esse encontro mudaria nossas vidas, que finalmente faríamos algo, que ali, na noite, viviam pessoas tão sensíveis quanto nós, que temos tudo.

Vinte minutos depois, conversávamos com um ex-marinheiro que tomava vodca e trepava com a coroa que vivia no prédio em frente. Nunca levamos a tal quentinha a lugar algum. Nem que não tivessemos levado, mas não fizemos o que ele mais queria.
Não passamos nem pra dizer "Oi".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ode

É quando a maré sobe
a vontade me morde
me sobe
no pescoço e pode
me derrubar no sacode
dançante dessa ode
e, de capote,
me levar até onde
a vista chege;
Num fode
Que eu vô é me'mbora.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Falta algo

Que saudade que tenho de como tu me chupava a língua.
Nem sei por quê te falo, se não vai entender patavinas. Mas que é verdade é. Na falta de outra língua que nos unísse, usamos sempre aquela dos sabores. E que sabores! Saudade do agridoce do teu suor; do cheiro seco de sua nuca, bem ali onde terminam os cabelos, negros, húmidos, e começa o alvo vale que tão tímidamente conquistei; Do gosto (de sangue novo ou de moedas?) de teu sexo, da forma de teus pés, do barulho de suas unhas, riscando o estofado de minhas coxas. Dos pêlos, fofos, de tuas axilas, a perfeição das sobrancelhas, a maciez das nádegas em minhas palmas ou o eriçar de um mamilo, um apenas, no vento frio de Abril. Beija meus olhos, que você é Abril. Sempre foi. Maio inevitavelmente chega; Mas você continua lá, imóvel, dócil como pássaro ferido de quem me aproveito.

Hoje, quem precisa de cuidados sou eu. Falta algo. Não sei bem o que é, mas falta algo aqui.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Prisão perpétua


Frida Kahlo está presa, numa imagem de si mesma, no fundo de meus olhos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

La Llorona

Hoje chorei com Chavela Vargas. Como era bela, e continua bela, Chavela Vargas. Que voz, que rosto, que vida. Quando canta, Chavela parece querer cospir em nossa alma todas as mazelas pelas quais passou na vida. A dor arrepia, emociona, e parece acompanhar o corpo e o canto desta mulher maravilhosa. Que deve ter sido o amor de Frida Kahlo? Que deve ser o amor de Almodovar? Para Chavela, nada, pois Chavela é só. E só Chavela sabe cantar solidão como se deve. Também, aos quase 90, tem muita. Parceira apenas do alcool, do violão e de sua voz, a velha não entende, até hoje, como vivem juntos os enamorados. Para ela, é uma farça, pois tudo a convivência destrói. Que bom que esteve sozinha esses anos, então, pois não lhe destruíram a vontade que ainda mostra ao cantar. Nem a pólio, nem a cegueira lhe tiraram nada disso. Homem nenhum o faria. Ou mulher. Quantas bocas, sujas de batom, teria beijado Chavela Vargas? Para quantas teria apontado sua arma, suas botas de macho, sua voz, seu coração...bom, este se mateve no lugar toda vida, pois, como diz a velha ranchera, “Yo amo con el hígado, el corazón no tiene nada que ver con eso”.

Mas mesmo assim, La Llorona me dói, bem no fundo do peito.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Arte à parte.

Que sei eu na condição humana? Nada. Ou quase nada. Sei que é finita. E dolorosamente curta. Poderia, como outros, comparar-nos à estrelas cadentes, fogos de artifício, velas, qualquer besteira. Mas não.
Sei que a arte nos define. E que está completamente moribunda.
Que acontecerá com o ser humano com o fim da arte? Afinal, existirá este fim?
Acredito que o erro, talvez, seja o registro. O registro de tudo, o acesso à tudo, tudo, tudo, tudo fica igual, perdemos a continuidade silenciosa dos contos contados de orelha em orelha. Ninguém mais conta contos. Pode parecer uma besteira, uma obviedade. Sei lá por que só parei pra pensar nisso agora, mesmo com Adorno e Benjamin gritando nos meus ouvidos.
Mas, afinal, cada vida não é sua, à seu modo? Não temos todos algo que ouvir ou dizer, seja da forma que for?
Então quando foi, Deus, que paramos de nos admirar?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Papel do poeta em dias de chuva.

Não sei quantos de vocês repararam no quanto tem chovido lá fora (tem alguém aí?). É assustador. Eu, em vinte anos de vida, nunca tinha visto tanta água junta, logo, até com as pessoas com quem tenho alguma coisa pra conversar, acabei puxando o bom e velho "nossa, e o tempo, hein?". Procuro uma resposta, uma explicação além da "É o aquecimento global; o fim do mundo". O que eu não fiz? Olha, eu já não dirijo, nem carta não tenho; separo meu lixo direitinho sempre que posso; tento não jogar bitucas nos bueiros ou em outros lugares aonde elas vão, com certeza, atrapalhar; Juro que penso no desperdício d'água, e se um dia virar vegetariano, é apenas por causa da massa verde destruída contínuamente para dar lugar aos pastos, o pisoteamento do solo, o uso indevido de grãos, etc, etc, bla bla bla; abre parênteses: não, não sinto pena dos animaizinhos. Fecha parênteses. Não, espera. É, não sinto pena dos animaizinhos, sinto pena é da gente, que não somos mais bichos há muito tempo. Pronto, agora fecha.
Então vem aquela pergunta: Que diabos eu vou fazer em caso dum fim-do-mundo?
( Não propriamente o fim, ao pé da letra; mas uma tragédiona, daquelas com bastante neve e metade da população se afogando )

Sempre vão precisar de médicos, sempre. Engenheiros, lá vai. Atores podem servir para distrair as crianças enquanto fugimos todos para a cápsula que nos enviará para Marte, agora um lugar belo e amigável (sim, acredito que talvez dê tempo de traçar nossa rota de fuga por lá; se o fim vier antes disso, me desculpem).
Os últimos da fila, com certeza, seríamos nós: Jornalistas, cineastas, poetas, pintores. Os últimos. Salvariam , quem sabe, o Galeano; o Mainardi ou o Salinger (pro caso de faltar lenha no meio do caminho); e se tiver muito espaço sobrando mesmo, eu sugeriria a Clarah Averbuck, por motivos óbvios de repovoamento galáctico.
Mas nós, pobres blogueiros, estariamos fadados à terríveis privações, mutações, e os que sobrevivessem teriam de aprender a escrever debaixo dágua. A parte boa seria que muitos conseguiriam, finalmente, levar alguém pra cama. "Olha, eu sou QUASE o último homem na face da terra."
Não adiantaria. Não chegariamos à terceira geração de terráqueos. Morreriamos todos, nós e nossos netos, de fome e abstinência, quando o macarrão e os cigarros acabassem.

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Na verdade queria só pensar se ainda érealmente necessário o trabalho de denúncia de seus tempos, da parte dos poetas. Como Gregório de Matos ou sei lá mais quem me foge à memória agora.
Opa, isso não é o ventilador. Melhor ir dormir.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Retomada.

Acordei hoje não sendo mais eu; mas tu.
Me empregnaste com tudo, desde teu cheiro
às idéias, ao tato, ao que ouço,
como vivo;
ou como não vivo mais.

Nem sei quem é,
quem que me bateu agora por detrás dos olhos e disse:
"Pronto, criatura, acordas outro."
E agora tenho que correr, pois acabei de nascer.

E não fica bem nascer aos 20.

Ninguém cuida de infantes barbados.
nem que estes cheguem à coroa,
que hoje, se bem lembro, não vale mais nada.

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Na verdade, só queria dizer que, outro dia desses, acordei contigo na cama.
Não essa você que está aí, sendo feliz de outro jeito,
que não o meu jeito;
Acordei com a você de dentro,
Acordei sendo tu;
Acordei sentindo o que tu nunca sentiu por mim,
mas que no fundo sabia;
E tu me tinhas de tal jeito, que não soube mais sair da cama se não fosse pra te ver,
nem que fosse no espelho.

Mas lá chegando já não estavas.
Só meu velho rosto.
Minha tosse.

Pasta, sabão e água,
que trazem a gente de volta pro chão.
Agora dou todas as minhas economias pra não esbarrar contigo na rua hoje.
Nem nunca. Não enquanto for assim.