terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Arte à parte.

Que sei eu na condição humana? Nada. Ou quase nada. Sei que é finita. E dolorosamente curta. Poderia, como outros, comparar-nos à estrelas cadentes, fogos de artifício, velas, qualquer besteira. Mas não.
Sei que a arte nos define. E que está completamente moribunda.
Que acontecerá com o ser humano com o fim da arte? Afinal, existirá este fim?
Acredito que o erro, talvez, seja o registro. O registro de tudo, o acesso à tudo, tudo, tudo, tudo fica igual, perdemos a continuidade silenciosa dos contos contados de orelha em orelha. Ninguém mais conta contos. Pode parecer uma besteira, uma obviedade. Sei lá por que só parei pra pensar nisso agora, mesmo com Adorno e Benjamin gritando nos meus ouvidos.
Mas, afinal, cada vida não é sua, à seu modo? Não temos todos algo que ouvir ou dizer, seja da forma que for?
Então quando foi, Deus, que paramos de nos admirar?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Papel do poeta em dias de chuva.

Não sei quantos de vocês repararam no quanto tem chovido lá fora (tem alguém aí?). É assustador. Eu, em vinte anos de vida, nunca tinha visto tanta água junta, logo, até com as pessoas com quem tenho alguma coisa pra conversar, acabei puxando o bom e velho "nossa, e o tempo, hein?". Procuro uma resposta, uma explicação além da "É o aquecimento global; o fim do mundo". O que eu não fiz? Olha, eu já não dirijo, nem carta não tenho; separo meu lixo direitinho sempre que posso; tento não jogar bitucas nos bueiros ou em outros lugares aonde elas vão, com certeza, atrapalhar; Juro que penso no desperdício d'água, e se um dia virar vegetariano, é apenas por causa da massa verde destruída contínuamente para dar lugar aos pastos, o pisoteamento do solo, o uso indevido de grãos, etc, etc, bla bla bla; abre parênteses: não, não sinto pena dos animaizinhos. Fecha parênteses. Não, espera. É, não sinto pena dos animaizinhos, sinto pena é da gente, que não somos mais bichos há muito tempo. Pronto, agora fecha.
Então vem aquela pergunta: Que diabos eu vou fazer em caso dum fim-do-mundo?
( Não propriamente o fim, ao pé da letra; mas uma tragédiona, daquelas com bastante neve e metade da população se afogando )

Sempre vão precisar de médicos, sempre. Engenheiros, lá vai. Atores podem servir para distrair as crianças enquanto fugimos todos para a cápsula que nos enviará para Marte, agora um lugar belo e amigável (sim, acredito que talvez dê tempo de traçar nossa rota de fuga por lá; se o fim vier antes disso, me desculpem).
Os últimos da fila, com certeza, seríamos nós: Jornalistas, cineastas, poetas, pintores. Os últimos. Salvariam , quem sabe, o Galeano; o Mainardi ou o Salinger (pro caso de faltar lenha no meio do caminho); e se tiver muito espaço sobrando mesmo, eu sugeriria a Clarah Averbuck, por motivos óbvios de repovoamento galáctico.
Mas nós, pobres blogueiros, estariamos fadados à terríveis privações, mutações, e os que sobrevivessem teriam de aprender a escrever debaixo dágua. A parte boa seria que muitos conseguiriam, finalmente, levar alguém pra cama. "Olha, eu sou QUASE o último homem na face da terra."
Não adiantaria. Não chegariamos à terceira geração de terráqueos. Morreriamos todos, nós e nossos netos, de fome e abstinência, quando o macarrão e os cigarros acabassem.

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Na verdade queria só pensar se ainda érealmente necessário o trabalho de denúncia de seus tempos, da parte dos poetas. Como Gregório de Matos ou sei lá mais quem me foge à memória agora.
Opa, isso não é o ventilador. Melhor ir dormir.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Retomada.

Acordei hoje não sendo mais eu; mas tu.
Me empregnaste com tudo, desde teu cheiro
às idéias, ao tato, ao que ouço,
como vivo;
ou como não vivo mais.

Nem sei quem é,
quem que me bateu agora por detrás dos olhos e disse:
"Pronto, criatura, acordas outro."
E agora tenho que correr, pois acabei de nascer.

E não fica bem nascer aos 20.

Ninguém cuida de infantes barbados.
nem que estes cheguem à coroa,
que hoje, se bem lembro, não vale mais nada.

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Na verdade, só queria dizer que, outro dia desses, acordei contigo na cama.
Não essa você que está aí, sendo feliz de outro jeito,
que não o meu jeito;
Acordei com a você de dentro,
Acordei sendo tu;
Acordei sentindo o que tu nunca sentiu por mim,
mas que no fundo sabia;
E tu me tinhas de tal jeito, que não soube mais sair da cama se não fosse pra te ver,
nem que fosse no espelho.

Mas lá chegando já não estavas.
Só meu velho rosto.
Minha tosse.

Pasta, sabão e água,
que trazem a gente de volta pro chão.
Agora dou todas as minhas economias pra não esbarrar contigo na rua hoje.
Nem nunca. Não enquanto for assim.