sábado, 21 de fevereiro de 2009


Celulose. Filme, filme, inflamável filme. A coisa mais inflamável do mundo, e tu continuas aí, imutável, me zombando enquanto me acabo em cinzas.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Pornô



Olha. Pornografia. Porno. Grafia. Palavra de derivação grega. Grafia, escrita, essa todo mundo sabe. Porno. πόρνη. Porné. Prostituta. Prostituta. Escrever sobre prostitutas. Como que, em tantos anos vendo pornografia de tudo quanto é jeito, a torto e a direito, nunca parei pra pensar nisso? A escrita das prostitutas. Tudo soa tão mais sujo agora, tão mais...feio, machista. Não que eu tenha algo contra o machismo, longe de mim. Alias, ainda acho que é uma arte que está se perdendo. Mas é feio. Estéticamente horrível, o machismo. E covarde.
Afinal, a moça se fode sozinha, ou o pau ali não seria, também, um comprado?

(Caso clássico. Meu irmão mais novo diz, no meio do jantar, "Ei, já sei, vou fazer vestibular pra prostituto!". Todo mundo ri. Minha priminha...)

Sobre a minha priminha ninguém escreve. Poucas prostitutas escrevem. As que li, trepavam muito bem. Já escrever...
Mas, mesmo com essa escassez de apoio às suas origens, a pornografia segue,pelas mãos de homens que as usam muito mais do que deveriam.
As mãos, digo.

Veja. A mão. A culpa. A morte.
Vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Alarme Falso.

Estávamos os três, de novo, sentados naquela mesa de bar. O bar não era o mesmo, mas a mesa era. A mesma de tantas outras terças-feiras: nós três, umas quinze garrafas de cerveja no meio de uma dose ou outra de rum, cinzeiros cheios. Conversávamos, de novo, o de sempre. Como era belo o comunismo, como não dava certo, como era horrível ter vinte anos e não saber nada da vida, como arranjávamos desculpas para não fazer nada. E isso era uma desculpa para nos sentirmos melhores. Ao expor o erro, esse parece sumir; mas não. E não sabemos disso, até hoje.
Foi no auge da conversa que chegaram. Duas figuras sujas, acabadas pela cidade. Um gordo, outro magro, mas não era cômico. Chegaram devagar. "Ei, você...me arranja um cigarro, por favor?", pediu o magro. Carregava um saco de latas, e tragou fundo o cigarro que o da ponta oferecia. Matutou, olhou pra cima, coçou a barba... Não esperávamos a pobreza tão de perto, depois de tanto falar dela.

"Amar é transformar as penas em sorriso...
Amar é transformar o inferno em paraíso...
O amor embala a vida quando é puro,
O amor conduz à morte se é perjuro...
Eu quero ser feliz - serei um dia!
Eu quero ser amado - serei um dia...
Porém, amado com toda sinceridade...
Qur mentira de amor, ah, não é amor, é falsidade..."

Num repente nos presenteia o gordo. Recitou como quem não quer nada, se enfiando pelas cadeiras, mirando o horizonte no fim do balcão. Alguém agradece, oferece uma cerveja. Ele toma com gosto, enquanto o magro tenta lhe puxar pelo braço. "Vambora, é tudo roquêro, eles não gostam disso não...". O gordo respira fundo. "Roquêro? Ouve essa então... Hey Jude, don't be afraid...". Ah, que susto besta! A pronuncia corretíssima, o ritmo conhecido...é uma pena saber mais de Lennon que de Barroso, mas assim é. Ficamos mais animados que com a bela poesia que veio antes. O papo cresceu, e o mendigo já tinha um copo pra si. Descartável, que dono de boteco não é santo, mas tinha. A impaciência do magro crescia a medida que o cigarro ia acabando, e na medida que íamos nos divertindo mais com as pérolas musicais oferecidas pelo mendigo gordo. Até que acaba o cigarro, bituca no chão, ele chama. "Vamo nêgo, vambora".
"Ei, toma esse dinheiro aqui". Eram dois reais. Dois, menos que uma cerveja daquelas. O gordo segurou a nota por uns dez segundos, até que seus olhos se enxeram levemente de lágrimas. Choroso, empurrou a nota de volta na mão branca e macia de meu amigo. "Guarda teu dinheiro, moleque, guarda. Com isso tu compra um pão pra tu que é melhor, que não quero dinheiro não. Tu não sabe como é ruim ficar sem saber da gente. Ninguém olhar pra gente, ninguem falar da gente com a gente sobre a gente, nada...Que eu trabalhando de pedre'ro caí do telhado, e fiquei pra mais de dois dias lá jogado, com as costela quebrada, os ossos tudo doendo, até que alguém foi me ver. Se tu quisé ajudar mesmo, leva uma quentinha amanhã debaixo da marquise do supermercado alí, lá pras oito hora, que é o melhor que tu faz. Tamo lá direto, e comida é qeu é o bom, viu? Guarda teu dinhero, compra um pão e passa lá...". Imagine a cara de idiota dos três ao ouvir essa confissão. O magro abarcou o gordo com um braço, e, consolando-o, foram andando calçada afora. Não sem antes pedir um último cigarro, não sem antes nos lembrar aonde estariam instalados. Pensamos que esse encontro mudaria nossas vidas, que finalmente faríamos algo, que ali, na noite, viviam pessoas tão sensíveis quanto nós, que temos tudo.

Vinte minutos depois, conversávamos com um ex-marinheiro que tomava vodca e trepava com a coroa que vivia no prédio em frente. Nunca levamos a tal quentinha a lugar algum. Nem que não tivessemos levado, mas não fizemos o que ele mais queria.
Não passamos nem pra dizer "Oi".

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ode

É quando a maré sobe
a vontade me morde
me sobe
no pescoço e pode
me derrubar no sacode
dançante dessa ode
e, de capote,
me levar até onde
a vista chege;
Num fode
Que eu vô é me'mbora.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Falta algo

Que saudade que tenho de como tu me chupava a língua.
Nem sei por quê te falo, se não vai entender patavinas. Mas que é verdade é. Na falta de outra língua que nos unísse, usamos sempre aquela dos sabores. E que sabores! Saudade do agridoce do teu suor; do cheiro seco de sua nuca, bem ali onde terminam os cabelos, negros, húmidos, e começa o alvo vale que tão tímidamente conquistei; Do gosto (de sangue novo ou de moedas?) de teu sexo, da forma de teus pés, do barulho de suas unhas, riscando o estofado de minhas coxas. Dos pêlos, fofos, de tuas axilas, a perfeição das sobrancelhas, a maciez das nádegas em minhas palmas ou o eriçar de um mamilo, um apenas, no vento frio de Abril. Beija meus olhos, que você é Abril. Sempre foi. Maio inevitavelmente chega; Mas você continua lá, imóvel, dócil como pássaro ferido de quem me aproveito.

Hoje, quem precisa de cuidados sou eu. Falta algo. Não sei bem o que é, mas falta algo aqui.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Prisão perpétua


Frida Kahlo está presa, numa imagem de si mesma, no fundo de meus olhos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

La Llorona

Hoje chorei com Chavela Vargas. Como era bela, e continua bela, Chavela Vargas. Que voz, que rosto, que vida. Quando canta, Chavela parece querer cospir em nossa alma todas as mazelas pelas quais passou na vida. A dor arrepia, emociona, e parece acompanhar o corpo e o canto desta mulher maravilhosa. Que deve ter sido o amor de Frida Kahlo? Que deve ser o amor de Almodovar? Para Chavela, nada, pois Chavela é só. E só Chavela sabe cantar solidão como se deve. Também, aos quase 90, tem muita. Parceira apenas do alcool, do violão e de sua voz, a velha não entende, até hoje, como vivem juntos os enamorados. Para ela, é uma farça, pois tudo a convivência destrói. Que bom que esteve sozinha esses anos, então, pois não lhe destruíram a vontade que ainda mostra ao cantar. Nem a pólio, nem a cegueira lhe tiraram nada disso. Homem nenhum o faria. Ou mulher. Quantas bocas, sujas de batom, teria beijado Chavela Vargas? Para quantas teria apontado sua arma, suas botas de macho, sua voz, seu coração...bom, este se mateve no lugar toda vida, pois, como diz a velha ranchera, “Yo amo con el hígado, el corazón no tiene nada que ver con eso”.

Mas mesmo assim, La Llorona me dói, bem no fundo do peito.