segunda-feira, 29 de junho de 2009

O mundo é dos que falam, não dos que calam.

Que poder leva o tímido no peito!
Que poder leva o tímido adiante?
Que o impede de calar pra sempre?
Que o impede de falar quando precisa?

Por que se esconde, dentro de cada extrovertido, o pequeno veríssimo que não quer ser visto?
Por que se esconde, dentro de cada introvertido, o mistério do mundo que não vemos?

Os solitários entendem.
Obrigado Dahmer, agora sei. Os solitários sabem.
Coisas que só quem passa muito tempo consigo mesmo sabem.

Obrigado pelo presente feio, mesmo que eu não seja lá a pessoa bonita que o mereça.

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Levo o mundo todo dia, mas você não vai a lugar nenhum.
Deixe, deixe que os que falam cantem, deixe que o bêbado grite, deixe, ele tá bêbado mesmo, não dê atenção às verdades. Deixa ele falar, fala!
Que o mundo não é dos que calam.
POBRES OS QUE CALAM! POIS SÃO VISTOS COMO FRACOS! O mundo não é dos que respeitam os corpos alheios. POBRE DOS QUE CALAM! POIS SÃO VISTOS COM ESTRANHAMENTO ENORME! O mundo não é dos que se importam com a vontade alheia. POBRE DOS QUE CALAM! POIS É DELES O REINO DOS CÉUS! Mas lhes são negadas as delícias da carne. POBRE DOS QUE CALAM! Pois morrerão com seus segredos. POBRE DOS QUE CALAM! Por levarem o mundo no peito.

sábado, 20 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Semear

Com as sementes da família, desperdiçadas sobre meu ventre nu, é que quero, contigo, semear os frutos do fim da frustração.
Não é assim que vão nascer, nem do cultivo pesado ou dos enxertos de carne que poderia fazer em ti. Nada cresce se esperando deitado. E é bom, vez por outra, sob a sombra desse ventilador. Mas não só.
Quero passear sobre esses campos inglórios, quero pisotear velhas gargantas, quero, contigo, calar a frente de outro mundo qualquer e poder pensar "Ei, não tenho medo".
Quero, contigo, calar pra sempre. A frente de outro mundo. E poder pensar.
"Ei, não tenho mais medo".

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pedaço de Fantasmagoria

Caí pra dentro do oco do peito:
Perigo brabo de se tê-lo aberto.

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Procuro a saída na luz lá de cima
Bobagem; A luz vem de dentro.

-

No fim, cá estou em casa,
O fundo do poço já me espera com meu catre,
Meu travesseiro, meus retratos na parede.

-

A mente, se solta, tem o problema de se prender, fácil, em qualquer lugar.

-

O coração, se preso, tem o problema de se interessar, fácil fácil, por outras prisões.

-

O ventre, se preso ou se solto, tem os problemas iguais de foder o resto da vida.
Digestão tem medida.

-

"Devora-me, ou te decifro!" disse o velho mexicano.
Com medo de me ver aberto, dei-lhe uma dentada.

Recado

E a você, mundo, ofereço este coração que mal bate
Estes pulmões que chiam
Esta boca que late
Estes dentes que mordiam
Estes intestinos preguiçosos
Estes olhos que ardem
Estes ouvidos penosos
Estes cabelos que caem
Este fígado cansado
Estes rins sobrecarregados
Este estômago inchado
Estes ossos remendados
Estas juntas que rangem
Este nariz que não entope mais
Estes dedos que tremem
Este pâncreas...que eu não sei o que faz.

Me deixa só o miolo, pra de vez em quando pensar.
E os culhões, dos quais preciso muito pra te enfrentar.

(Ou eu me entrego ou já era, cansei de tentar me tapar)

Perdoe a falta de talento.

Mas é isso.
É.
É, caro amigo. Fico soterrado
Debaixo de tantas ânsias trêmulas
E ansiedades extremas
Tão imbecilmente preocupado
Com tudo que pode dar errado
Que prefiro seguir nas estradas mesmas
A me aventurar pelo descampado
Desconhecido campo estrelado
Que os olhos dela desenham no chão.

Me ensine, então, a adorar!
Se na sujeira de meus lençóis
Esqueci vazio o altar,
Me mostre como então voltar
Ao calor daqueles dois sóis
qu'ela insiste na cara levar,
Aqueles que só eu posso olhar
Quando estamos a sós
Sem ter o risco de me cegar
Por me serem frios, focinho de cão.

Me obrigas a usar a palavra errada
A rima marcada
A frase forçada,
Quase vioentada
Nessa toada
De repente e de nada
Como é nada, agora
Minha vida passada
Ou assim espero que seja
Ou assim espero que me veja
Pra não entrar nessa peleja
Com lanças quebradas de outros carnavais.
E digo mais:
Amanhã passaremos, talvez, por seus quintais
Que, apesar de serem apenas um,
De tão vazios me parecem tantos mais a mais.

...

Perdi o fio da conversa.
Talvez, a próxima pergunta era:
O que te faz tão diferente de mim,
Quando temos os nervos tão afim,
Que te faz ver além do vulgar,
Que não consigo largar?

...

Termino agora, que a noite é alta.
Concordarias comigo que um copo,
nessas horas,
faz falta
Pra dormir mais depressa,
Pra acordar, talvez, noutra vida,
E não nessa.

(Sendo eu, eu mesmo, mas sem tantos alfinetes
do lado de dentro da cabeça)