quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A tardinha vai...

Dois senhores estão sentados em cadeiras confortáveis, de madeira e vime, na calçada em frente à casa de número 43. É Agosto, mas mesmo assim faz um calor insuportável, o meio-dia fazendo a ruazinha recém asfaltada incandescer em vapores ilusórios. Um dos senhores está sem camisa e bebe, ruidosamente, duma latinha de cerveja barata, comprada no botequim do outro lado da rua. Subúrbio de interior, o senhor descamisado tem uma conta de pindura aberta há mais de dez anos, com o portuga do botequim. Portuga esse que está sentado ao seu lado, a camisa de linho ensopada de suor, as canelas a mostra sob a barra dobrada da sua calça de pregas bem engomadas. O portuga reclama, enquanto o outro bebe e arrota. Reclama do ar parado, que mantém as inúmeras árvores da rua em silêncio, como mantém a todos dentro de suas casas. Reclama também do fato de que o amigo nunca paga a conta pendurada no botequim há mais de dez anos. Quando vai pagar? Deus sabe. A vida é dura. Levanta-se com dificuldade, passa a mão sobre a barriga protuberante, desnuda, suada, amassa a latinha e a joga na calçada mesmo. Vou pegar outra. Lentamente atravessa a rua, entra no botequim, cumprimenta Dona Maria, pega outra e volta, sentando-se novamente ao lado do amigo português, que apóia o queixo numa bengalinha de bambu.
Passados uns vinte minutos, pouco mais, pouco menos, as crianças saem pra rua. Olha lá! Minha netinha já sabe andar de bicicleta, tão esperta, diz o primeiro senhor, depois de uma longa golada. O portuga assente com a cabeça, levanta-se e espreguiça-se, apoiado na bengala. A neta do beberrão passa pra cá, plec, plec, plec, as rodas da bicicleta. Passa pra lá, plec, plec, plec, clang, o portuga enfia a bengala no meio da roda da frente, a mocinha voa e cai no fervente asfalto recém colocado da ruazinha de subúrbio no interior. Dois dentes, que estavam quase caindo mesmo, e um bracinho, que depois se conserta mesmo. O gordo senhor semi-nu se levanta, berrando com o portuga. Que caralho é esse? No que o outro responde, por debaixo dos bigodes. As crianças têm que aprender que a vida é dura. O senhor amassa a segunda latinha, encaminha a neta para dentro de casa, depois senta-se, ruidosa e lentamente, para dizer, calmo. Já que a conta está quitada, va buscar mais uma lá, vá Manolo.
Ódio tremendo no bigodinho do portuga.

sábado, 19 de setembro de 2009

Mudei

Aqui seguem apenas os textos. Os desenhos e as tirinhas vão para http://dizimadizimada.blogspot.com
Eu sei, é um nome horrível. Mas fazer o que?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A maior ressaca do ano

Na véspera de mais um dos dias melhores ainda remôo o que o velho mexicano me pôs na cuca. Suas palavras são como farpas de vidro doce, como o berro duma criatura que não tem boca para berrar. E as palavras é tudo que tem. Talvez não saiba, talvez seja ironia, talvez seja só a bebida, mas eu sou tolo de levar tudo isso comigo, a sério. Não parece, realmente não parece, mas a poesia bruta, o verso falado, aquele que não pode ser escrito por brotar apenas de gargantas malditas já maltratadas pela fumaça da madrugada, vem de quem menos esperamos. Ainda bem que já esperava, se não teria caído em prantos maiores com nossas confissões.
Realmente meu caro, isso é tudo que temos, então ou nos mudamos por inteiro, ou enfrentamos o diabo com um sorriso na cara. Eu sei que seus cabelos são de um perfume que mata o homem fraco, que a face bela do capeta nada mais é que a bruxa que roubou tua alma pelo coração, sua boceta dentada te mascando a vida. Eu sei. Mas não se entregue, não se perca nessa avalanche do "tudo que temos", mas também não lute contra a maré alta e as ondas revoltas. Levanta a cabeça, companheiro de brados encachaçados, que o lixo nada mais é que o troco que devolvemos ao mundo. Faça do lixo luxo, enfeite bem os entulhos, e os entregue com os olhos vivos. Nos entorpecemos enquanto a cuca anda a solta, então fique atento.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Macroman 02


Mais uma do Macroman.

Nada como uma segunda-feira com cara de domingo. Macarronada da vovó e filmes de kung-fu horrorosos na TV com meu pai. Cura qualquer ressaca.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Ditinha, a Dominatrix


Queria desenhar metade do que o Laerte desenha.



Só metade. Tava bom demais.