sábado, 28 de novembro de 2009

Mofo.

Adoro o cheiro de mofo que tem meu quarto na casa dos meus pais. Apesar da minha alergia severa (que faz com que o tempo todo que eu passe aqui, eu passe espirrando e tossindo feito um pobde diabo que cheirou pimenta do reino), é um cheiro reconfortante, quase uterino. A cama já foi melhor, mas o lençol, intocado a semanas, me aconchega como o colo de minha nêga. Poderia passar dias dormindo aqui, sem interrupções nem remorços. O silêncio de subúrbio do interior pesa em meus ouvidos, é como ouvir uma lingua que você domina, compreende fluentemente, mas não escuta há anos. Deve fazer uma semana ou outra que não ouço o silêncio, mas pombas, ele me faz uma falta tremenda lá em casa! Pra que fizeram das cidades grandes enormes maracas a pipocar estridências sem parar? Aqui ouço cada grilo no quintal, cada sapo no terreno, cada moto na distância.
Mas sim, estava falado do cheiro de mofo.
Não é como se isso significasse que perdi meu espaço no lar, que ninguém mais cuida ou limpa (d)esse canto da casa. Não é nem um pouco isso. Tudo bem que não veja mais minha presença nas paredes (se é que, nesse quarto, já houve isso um dia. No outro, que dividia com os irmãos, talvez). Tanto faz. O fedor,na verdade, vem das lembranças em papel, trancadas no amplo armário de madeira nobre e escura, me lembrando dum passado bom, que me serviu de escada ou ladeira para chegar onde estou. Vejo no rastro desse mau cheiro uma pontinha do teu perfume.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

(sic)

O que se esconde nos âmagos? (os nove circulos enterrados)

E foi como se tomado de assalto que me percebi alguns degraus abaixo do nível do mar. Foi só quando percebi que a respiração estava fácil, que ventava um bafo morno, que meus ouvidos tinham se aberto. Foi a lucidez ao olhar pra cima e perceber as ondas batendo calmamente nas pedras que antes pareciam tão pequenas. Foi respirando fundo e segurando o ar com força para tentar desfalecer, apagar por um instante. Um movimento acertado e a vertigem tomaria conta de mim e aí já viu. Se estou tão baixo, o equilibrio é completamente desnecessário. Todas as forças da natureza e das leis da física estão jogando a meu favor. Tentam me salvar, tentam aguçar meus sentidos, tentam me causar calor, tentam me manter aqui em baixo, e o pior... tão baixo eu cheguei, tão próximo do centro, tentam me matar de frio. Mas eu mesmo lucido, mesmo esclarecido, mesmo cercado dos mais baixos perigos que o mundo oferece, ah, mesmo assim, eu choro, eu choro na cara desse abismo gigantesco que sozinho não consegui galgar, e choro na cara da lucidez, e choro na cara do oceano e do vento, e puxo de volta tudo que ele tenta puxar de mim. Se venta na minha cara, eu respiro fundo, pois daqui de baixo o meu sopro equivale ao sopro do capeta, e meu choro é tão estrondoso quanto um trovão. Não arriscaria nunca algumas brincadeiras - como ficar apoiado em uma perna só, dar alguns pulinhos, ha ha ha, porque se você para pra pensar direito, nem estou tão baixo assim, ainda há muito pra descer, temos muito chão pela frente. E que seja mais e mais lucido, que não quero ter que saltar os relâmpagos, ou acabar pegando jacarézinho no dilúvio, já sinto que o sol pode me apagar com seu cuspe; subamos, pois, a vertigem nos aguarda.

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Brincadeira com o seríssimo http://docevomito.blogspot.com/2009/11/o-que-se-esconde-nos-cumes.html . Vou ouvir muito hoje.

domingo, 15 de novembro de 2009

Veremos o verão.

E a palma da tua mão me acaricia como fumaça doce de incenso, leve e breve, deixando forte teu cheiro em tudo que tem cheiro. Meu pulso, já tornado máquina, pulsa como pulsam as fornalhas dos trens de antes do nosso mundo. Um impulso.
Um impulso agora pensado. Nunca pensei tanto. E nunca foi tão bom pensar. E pesar a leveza das mil almas velhas que brigam dentro de mim por uma brecha na janela pra te dar uma espiada. As cortinas estão escancaradas nessa casa, mas a luz que entra é tanta que não se pode ver nada. Roda de neve na volta do pátio, em pleno país do fogo. O calor é pretexto, nossa desculpa do momento. Viva o verão de minha vida!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Reação

Ele escrevia poemas.
Ela não dava atenção.

Ele ligava para ela.
Ela não ligava.




Ele começou a assaltar bancos.

100

Cem postagens.
Não sei se tô feliz ou triste.