sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Capa de jornal

Vida é impulso.
Elétrico.

Um pulso. Elétrico.
Não mais que esse tudo, o mundo,
confinado em minhas fiações.
Um curto. Não vejo. Um curto. Não digo. Um curto. Não ouço. Mal algum.
Bem algum nos salvará do curto.

Hoje, voltando pra casa, caminhando apressado na beira dum cenário vítreo, rico, lutava contra o frio e um cigarro que se impôs, não sei ao certo ainda se por pedido de meu corpo ou pela própria situação. É estranho estar tão frio em Novembro. Policiais revistam um casal que acabou de descer de sua moto, quando, dois passos, o canto de meus olhos avista. A massa disforme e embotada, húmida e peguenta, os pêlos, os dois bracinhos de garra se agitando mecânicamente entre uma cauda comprida que se agita, mecânicamente, movida aos últimos impulsos, elétricos, esmagados entre o asfalto e a próxima roda de um coletivo qualquer.
Não sei pra onde os ônibus vão. Muito menos praonde vai aquela coisa lá atropelada. Faço força para olhar pra frente e não mais imaginar aquelas patas, pêludas, de unhas, em espasmos se agarrando à parte de trás de meu joelho, tentando subir por dentro de minha blusa, os cliques e claques, o sangue quente, os arranhões, o chêro. Quê pode deter a morte penetrando pelas frestas do agasalho? Quem sabe se ali estivesse, estirado, um homem, pudesse eu fazer algo, chamar socorro, me compadecer mais que me enojar. Quase corro para não ver aquela pequena fagulha de eletricidade cessar sua corrente. Quem sabe quanto tempo ainda se moveu antes de suas baterias pifarem de vez? Em que tentava se agarrar, tão sôfregamente, avidamente, consciente-mente? O último choque, respirar mais um dedo na tomada? Ou em nada se agarrava, e seus pequenos braços dançavam no ar apenas ao som de um curto circuito?
Tento cantar um berro rouco. Corro. Chego em casa rindo.
Cada passo um pulso, um impulso elétrico.

E eu, sempre tão cético, hoje, quis em algo crer.