sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O Demônio em branco

Ah...as reticências, que delicioso recurso literário! Nada me fascina mais do que reticências. Dizem tudo e, não dizendo nada, te forçcam a pensar. Que presente lindo você me deixou!
Enquanto isso, a arvore fugia com suas coxas grossas envoltas em gastas meias-calças.
Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela. Vi-a na viela.

E sempre achei que havia um demônio aprisionado nas folhas daquele caderno. Era velho, e já amarelara há tanto tempo que sua decrepidez parecia algo natural. Não havia linhas nem nomes, nada que o indentificasse como antiga posse de alguém, mas desde sempre estivera na estante. Sua capa dura de tecido desbotado lembrava o dorso de um magro cavalo pardo; você poderia sentir as costelas e, de quando em quando, a sua penosa respiração. Era, sem dúvidas, um ítem mágico, um tomo de feiticeiro, uma bíblia dos corcundas e putas. O único fato que me fazia descartar tais possibilidades era a já mencionada solidão das páginas que o formavam. Nem uma gota.
Até o dia no qual criei coragem; muni-me da pena e do nanquim, à fim de enfrentar o demônio das páginas em branco.

Um comentário:

Anônimo disse...

eu sou uma fã numero um das reticências... eh muito improvavel achar um texto meu sem elas, já é marca registrada