segunda-feira, 19 de março de 2007

Peixes e Pássaros.

Em seu velho caderno ela escrevia. Nossa, e como escrevia! O caderno já estava quase acabando, lotado com seus textos, seus poemas, seus segredos.

E ninguém nunca os lia. Ninguém. Ela não deixava. Quando alguém pedia para ver o que era, simplesmente desconversava. Mas então, por que continuava escrevendo? Não sei, ora, pergunte a ela. “Por que você escreve?” “Não sei...”. Simples assim. Escrever estava no seu DNA, nos dedos, nos olhos, no couro cabeludo, enfim, cada célula dela era voltada ao ato de escrever. E tudo isso aos quatorze anos.

No começo, escrevia contos de fadas, historias fantásticas sobre princesas e castelos. Até que conheceu o amor. Quando isso aconteceu, os contos de fadas passaram a incluir príncipes e plebeus apaixonados, cavaleiros valorosos salvando suas donzelas. Conheceu a rejeição, e com isso esqueceu os contos de princesa e passou a escrever tristes poemas e histórias. Eis uma delas:

“Um pássaro voava livremente pelo céu azul de seu globo de vidro. Gostava disso, sua vida era passar dias voando pra lá e pra cá. Um dia, meio que sem querer, olhou para baixo e viu um belo peixe nadando. Apaixonou-se na hora. Mas havia um problema! Em seu mundo uma grossa camada de vidro sapara os céus, dos pássaros, dos mares, pertencentes aos peixes.

Não agüentando, voou até o vidro e lá pousou. O peixe, sua amada, nadou até a superfície para ficar perto do pássaro. Assim eles ficaram, ‘namorando’, pelo vidro. E foi bom por um tempo, mas a bela ave queria mais. Queria sentir sua amada junto a si, não só sentir seu calor por uma placa de vidro! E nesse desespero ele começou a bicar o vidro. Bicou, bicou, bicou, bicou até seu bico ficar totalmente desfigurado e sangrento. Assustada e preocupada, a peixinha o mandou ir embora, ‘para o seu próprio bem’. E nadou para o fundo.

O pobre pássaro não podia ficar mais triste. Voou, voou, voou o mais alto que pode. Seus amigos gritavam ‘Não faça isso!’ ‘É bobagem!’ e ‘Não ia dar certo mesmo!’, mas ele não deu ouvidos, e se jogou lá de cima. Caiu rápido como uma bala, o corpo tenso e determinado, os olhos fixados no fundo do “poço”...

Morreu na esperança de quebrar a barreira que os separava.”

Triste, não?

A menina cresceu, é claro, como todos eles crescem. Aos quinze anos, esqueceu seu caderno e conheceu a aceitação no amor. Estudou, fez medicina numa boa faculdade, casou, teve dois filhos, se divorciou.

Era uma medica bem sucedida. Nem de longe lembrava a menina de quatorze anos que escrevia. Tinha o cabelo curto e andava firmemente pelo seu hospital. Nem de muito longe lembrava a menina que se perdia num mar de cabelo castanho e andava engraçado, meio tímida, meio desengonçada mesmo.

E hoje ela está morrendo numa cama. Já haviam suspendido a quimioterapia há algum tempo, seus cabelos já haviam crescido um pouco. Irritou-se, levantou-se da cama e foi olhar suas coisas velhas. No meio delas achou um velho caderno.

Deitou-se e abriu-o aleatoriamente. Caiu na pagina dos peixes e dos pássaros. Leu, riu e disse em voz alta:

“Heh... Quem sabe se eu tivesse voado um pouco mais alto antes de me jogar no vidro... Talvez eu tivesse quebrado a maldita barreira...

Mas agora é tarde...”

Como eu sei disso? Eu estava lá. Eu estava ao seu lado, li com ela seu conto, ouvi suas ultimas palavras e a levei comigo.



***

Ah, crianças... se lembrem de sempre se jogar do ponto mais alto, tá?

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