pretos, finos,
para trás das orelhas
como sempre fazia
quando queria
mostrar
que estava muito interessada no que estava fazendo.
Ela ajeitou os cabelos para trás das orelhas e olhou firme no meu olho - o direito
o que enxerga bem,
o que viu tudo acontecer;
Ela olhou firme para aquele olho castanho e, com frieza e doçura calculada, sussurrou -
quase inaudivelmente.
Ininteligivelmente, tive que virar o rosto, apontar o ouvido direito -
o que ouve bem,
para sua boca - um rasgo lilás recheado de dentes pontiagudos -
e pedir que repetisse - devagar.
Ela ajeitou os cabelos para trás das orelhas, me olhou firme no olho e sussurou -
quase inaudivelmente:
"você é um merda, estou saindo de casa."
e acrescentou:
"não me procure mais."
Do lado de dentro do ventre, o plexo solar se fez presente -
caía uma chuvinha fina lá fora, dessas que parecem suspensas no ar.
Do lado de fora, chovia, lembrei-me de quando chovia no trecho curto, de não mais de 16km, entre Macaé e Rio das Ostras. Eu sentava no banco de trás do Ford Escort verde ardósia de meu pai - aquele carro que tinha o cheiro condizente com sua idade, o carro que era mais velho que eu - e via as gotas correndo pelo vidro da janela-que-não-abria, Elegia competidoras, estipulava linhas de chegada, torcia sempre pelas retardatárias. Quando chovia, mal me dava conta do entorno, da velocidade com que as coisas se moviam - só acordando do transe quando abruptamente a porta da frente se abria.
A porta da frente do nosso - meu - pequeno apartamento se fechou com um estrondo, me fazendo esquecer as gotas que competiam -
me fazendo procura-la no espaço vazio.
Mais uma pontada no estômago - a chuva la fora continua.
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