terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Isso não é uma corrida;

Ela ajeitou os cabelos
pretos, finos,
para trás das orelhas
como sempre fazia 
quando queria 
mostrar 
que estava muito interessada no que estava fazendo.

Ela ajeitou os cabelos para trás das orelhas e olhou firme no meu olho - o direito
o que enxerga bem,
o que viu tudo acontecer;

Ela olhou firme para aquele olho castanho e, com frieza e doçura calculada, sussurrou -
quase inaudivelmente.

Ininteligivelmente, tive que virar o rosto, apontar o ouvido direito -
o que ouve bem, 
para sua boca - um rasgo lilás recheado de dentes pontiagudos -
e pedir que repetisse - devagar.

Ela ajeitou os cabelos para trás das orelhas, me olhou firme no olho e sussurou -
quase inaudivelmente:

"você é um merda, estou saindo de casa."

e acrescentou:

"não me procure mais."

Do lado de dentro do ventre, o plexo solar se fez presente -
caía uma chuvinha fina lá fora, dessas que parecem suspensas no ar.
Do lado de fora, chovia, lembrei-me de quando chovia no trecho curto, de não mais de 16km, entre Macaé e Rio das Ostras. Eu sentava no banco de trás do Ford Escort verde ardósia de meu pai - aquele carro que tinha o cheiro condizente com sua idade, o carro que era mais velho que eu - e via as gotas correndo pelo vidro da janela-que-não-abria, Elegia competidoras, estipulava linhas de chegada, torcia sempre pelas retardatárias. Quando chovia, mal me dava conta do entorno, da velocidade com que as coisas se moviam - só acordando do transe quando abruptamente a porta da frente se abria.

A porta da frente do nosso - meu -  pequeno apartamento se fechou com um estrondo, me fazendo esquecer as gotas que competiam -
me fazendo procura-la no espaço vazio. 

Mais uma pontada no estômago - a chuva la fora continua.

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