terça-feira, 17 de março de 2020

Tem marcas profundas

A terra se abre

São marcas de batalhas antigas

As fendas no chão

Fendas antigas

Tiram o equilibrio

Dos gladiadores que agora se fitam.

Estão cansados.

Sabem dos motivos por que lutam.

Mas já não se lembram mais.

Pode um assassino,

Que mata pra não morrer

Perdoar o outro

Na mesma medida

Em que perdoa a si mesmo?

A trégua parece durar uma eternidade. Somente seus corpos sobraram de pé sob o sol.

Sozinhos. Tentando tomar uma decisão.

As fendas são profundas.

Os ferimentos também.

Como achar perdão

Em meio ao sangue que verte?

O abraço último pode ser uma artimanha, um punhal sorrateiro

Os dois hesitam.

Fitam tristemente os ferimentos infligidos um ao outro.

Um leva no alforje bandagens limpas e água fresca.

O outro, azeite e unguentos.

Eles podem saber disso.

Sabem?

Você limparia um ferimento que você proprio infligiu?

Um deles balbucia.

“Perdão.”

O outro sangra.

O sol brilha.

As fendas são profundas.

Um dia, há de correr aqui um rio,

Mas hoje não.

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