domingo, 5 de abril de 2020

Eu sinto que destrui meu primeiro amor de maneira parecida. Quase cinco anos juntos, indo e voltando. Você nunca quis saber por que eu e Gabi terminamos ne? Tanta coisa. Eu me fechei. Me afastei. Senti vergonha de impulsos que eu tinha, na ansiedade de me sentir um nada eu me entregava a fantasiar na internet e ela, se sentindo isolada, descobriu da mesma forma. Ela tentou entender, perdoar. Mas o dano estava feito. Nunca foi uma questão de não a amar, não foi mesmo. Eu ainda a amo, daquele outro jeito que o tempo ensina - ficando feliz por suas vitorias, tranquilo por ela ter achado alguém, aliviado por não ter tirado dela a capacidade de amar. Ela se sentiu pouco, pequena também, do meu lado. Me ressinto até hoje, e carrego culpa por não ter cuidado do jeito certo, por não ter demonstrado, por ter sido abusivo, como eu me rendia! Mesmo jovem, na minha cabeça e no meu conceito louco, nunca a traí. “Sempre estávamos terminados quando algo aconteceu”. Nunca davamos tempo, era sempre um termino mesmo. Estupidez. Eu nunca consegui trair de verdade. No capitulo seguinte, tentei me abrir por inteiro. Me senti traído, nao pelo corpo, isso estava acordado. Mas pela indiferença. Não havia mais amor, só confusão, e me senti menosprezado. A casca dobrou de tamanho, a ponto de sentir que não podia me fechar nem me abrir. Podia ter me aberto pra terapia aqui né? Mas sempre foi coisa de maluco la em casa. Todo mundo me trata estranho ainda. O caminho do meio as vezes é o caminho nenhum, e o problema sempre esteve aqui dentro. Eu perco de vista a pessoa que quero ser quando me sinto ameaçado, e muitos lugares ruins foram revisitados ao longo de três anos. Foi diferente. Meu amor por você é maduro, não tenho mais 19 anos. É o amor de quem queria construir algo, mas sentiu, desde a primeira vez em que a memória ruim foi ativada, sentiu que precisava resolver algo antes. E fiquei com o peito em suspensão. Jurei nunca trair ninguém como aconteceu comigo. Mas também jurei não me culpar por ter um mundo interno, por mais depravado que ele possa parecer as vezes. Ando tentando entender por que ele aparece, por que existe, e por que minha ansiedade desagua tanto na masturbação sem fim. Então esperava que passasse. Fingia não saber. E foi ai que tudo congelou. Não guardo mágoa alguma, eu entendo o que é se sentir inseguro. Mal amado. Não correspondido. Eu entendo. Eu entendo. Eu não queria me fechar, nunca quis. E não posso jurar que não aconteça de novo, e de novo, e de novo - mas posso jurar, pelo menos pra mim mesmo, tentar com todas as forças quebrar esse ciclo. Espero que você quebre o seu, pois sei que suas atitudes não nasceram comigo - afinal, apareceram bem antes de qualquer afastamento - vem também dos traumas passados, e que não consegui acessar. Espero que você entenda também isso, tenho certeza que a luta com seus demônios internos é imensa. Mas não podemos viver de acordo com o que fizeram de nós. Eu tento não, não consigo. Ainda estou trancado, muitas vezes, com 9 anos num quarto com meu primo sobre mim. Meu tio me achando um mentiroso. Ainda estou me escondendo dos meninos atrás da sala de ciências. Cruzo as pernas com orgulho em desafio. Mas não consigo também. Enfim. Não sei pra que escrever tantas cartas que você nunca vai ler. Talvez pra jogar pro universo um desejo de cura, tanto pro mal que te fizeram, tanto pro mal que eu fiz, quanto pro mal que você fez a si mesma. E vice versa. E desejo ficar feliz por você ser capaz de amar. Ei, quem sabe? Ninguém sabe. Sei que, agora, tenho que trabalhar na minha capacidade - de alguém poder confiar em mim, de ser confiável, de ser amável e compreendido. Você tem tudo isso dentro de você também. Tudo é um. Só queria não ter que botar a mão no fogo tantas vezes pra aprender.

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