Dia desses você me escreveu.
Era cedo.
O que é uma grande ironia, já que nos falamos de dois em dois anos
Há dez anos.
Em manhãs cinzas.
Não entendi muito bem o que foi isso
Mas gosto de fantasiar
que as vezes ainda fantasiamos
Espiar
por cima do muro de nossas decisões.
Não que isso vá mudar muita coisa,
Era tarde,
Mas tem uma coceira, uma dor boa se se sentir
Em acordar cedo
Passar um café
(Não tomo café),
Acender um cigarro
(Você não fuma)
E imaginar como está a vida
Que a gente não escolheu.
Espero que um dia eu me perdoe
Pela vida que vivi.
Aprendi tanta coisa, tanta,
Que me custaram os amores todos,
Até achar o meu próprio.
E agora, sem ter com quem dividir,
Vaidoso penso que Jesus também não teve filhos,
Que ego! Mas não é isso.
Ele disse amai-vos uns aos outros
Não mudai-vos uns aos outros.
Será que mudei?
O caminho foi esse e dele não saio vazio.
Mas olhe:
É triste pensar que só queria
Conversar com alguem que me entenderia
Se eu dissesse “bom dia,
Lembra
as cores que a gente tinha?”
Mas você também não lembra,
E minha vida vira
Um grande exercício
De lutar
Para ser
Esquecido.
Lembra?
