segunda-feira, 6 de maio de 2024

Manhã de chuva

 Dia desses você me escreveu.

Era cedo.

O que é uma grande ironia, já que nos falamos de dois em dois anos


Há dez anos.


Em manhãs cinzas.


Não entendi muito bem o que foi isso

Mas gosto de fantasiar 

que as vezes ainda fantasiamos

Espiar 

por cima do muro de nossas decisões.


Não que isso vá mudar muita coisa,

Era tarde,

Mas tem uma coceira, uma dor boa se se sentir

Em acordar cedo

Passar um café

(Não tomo café),

Acender um cigarro

(Você não fuma)

E imaginar como está a vida

Que a gente não escolheu.


Espero que um dia eu me perdoe

Pela vida que vivi.

Aprendi tanta coisa, tanta,

Que me custaram os amores todos,

Até achar o meu próprio.

E agora, sem ter com quem dividir,

Vaidoso penso que Jesus também não teve filhos,

Que ego! Mas não é isso.

Ele disse amai-vos uns aos outros

Não mudai-vos uns aos outros.

Será que mudei?

O caminho foi esse e dele não saio vazio.

Mas olhe:

É triste pensar que só queria

Conversar com alguem que me entenderia

Se eu dissesse “bom dia,

Lembra 

as cores que a gente tinha?”

Mas você também não lembra,

E minha vida vira

Um grande exercício

De lutar

Para ser

Esquecido.

Lembra?


domingo, 10 de maio de 2020

Cada sábado, um punhal

Cada domingo, um frontal

E você ainda me perguntou por que eu me despedia a cada final de semana

Você se despedia a cada final de semana

Cada segunda, uma espera

Cada sexta, uma reza


O que
Viraram
Meus dias

No terço
Das horas
Minhas

Meu tempo
Que gira
Pra frente

E demora

E mente

Sobre te encontrar

Lá fora.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Eu não quero pensar em você

Mas eu penso.

E as vezes eu quero pensar em você

E tu me foges.

As vezes quero me distrair em outro amor

Mas não existe

Querer é sofrer

E em toda meditação

Peço por paz pra mim e pra você

Mas sinto que minha paz

Ficou em alguma gaveta

Do seu quarto.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Que triste fim

quarta-feira, 15 de abril de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

So saiba

Que ainda quero.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Eu não queria ser livre

Mas vou ter que aprender

Queria, pelo menos, ouvir sua voz dizendo “tchau”

te dar adeus.
I don’t need
The world to see
That I’ve been the best
I could be, but
I don’t think
I can stand to be
Where you don’t see me
Interpretando palavras

Fora de contexto

Eu desço pela mesma estrada

Que te levou à loucura.

Não devo.

Permita a vida, permita,
E escute a verdade:

Que o amor se reinvente.
Dei uma entrevista hoje pra secretaria de cultura de Macaé. Foi divertido.

Mas o melhor foi logo depois, um audio da minha mãe escancarando exatamente quem eu sou:

“- Oi filho, foi muito legal, seu pai ficou até emocionado...
- (voz no fundo) não fiquei não.
- ficou sim!
- (voz mais perto) não fiquei
- ficou... orgulhoso
- (voz no fundo) fiquei nada, fala pra ele fazer o video pro primo dele...”

É isso.
Não sinta.
Não demonstre.
Faça o que tem que ser feito.
Vai no mercado.
Cozinha.
Compra um abajur.
Não fiquei emocionado.
Não fiquei.


terça-feira, 7 de abril de 2020

É, não dá.

Deletei foi tudo de novo.

Back to square zero.
Por insistência

Do tédio

E de uns amigo

Segui lutando

Nesses ambientes

Virtuais

Que mais parecem

Vitrine

De catálogo

Mas sei lá

Parece que eu to

Esperando

Alguém aparecer

Alguém específico

Pra dizer

“Ei, acho que o certo mesmo era cinco vezes”

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Eh uma sensação muito boa

Quando você acha que ta melhorando

Ai dobram seu remédio

“Desculpa, achei que ia ajudar no luto do término”

Minha filha

Tamo chegando no pre-sal
Você não me deve satisfação nenhuma

Mas eu acho que mereço

Depois desse martha
Cada dia
É
Só
Mais um dia

Esperando o dia

Que não tenha mais dias.

Até que, de repente

Um sopro de vida.
Ouvir sua risada me fez acordar pra vida um pouco.

domingo, 5 de abril de 2020

Domingão carente

E entediado

Baixei o app

Não sei pra que

Pensei “fudeu”

Meia hora jogando corpos

E rostos fora

Nenhum me comoveu.

Deletei.
Eu sinto que destrui meu primeiro amor de maneira parecida. Quase cinco anos juntos, indo e voltando. Você nunca quis saber por que eu e Gabi terminamos ne? Tanta coisa. Eu me fechei. Me afastei. Senti vergonha de impulsos que eu tinha, na ansiedade de me sentir um nada eu me entregava a fantasiar na internet e ela, se sentindo isolada, descobriu da mesma forma. Ela tentou entender, perdoar. Mas o dano estava feito. Nunca foi uma questão de não a amar, não foi mesmo. Eu ainda a amo, daquele outro jeito que o tempo ensina - ficando feliz por suas vitorias, tranquilo por ela ter achado alguém, aliviado por não ter tirado dela a capacidade de amar. Ela se sentiu pouco, pequena também, do meu lado. Me ressinto até hoje, e carrego culpa por não ter cuidado do jeito certo, por não ter demonstrado, por ter sido abusivo, como eu me rendia! Mesmo jovem, na minha cabeça e no meu conceito louco, nunca a traí. “Sempre estávamos terminados quando algo aconteceu”. Nunca davamos tempo, era sempre um termino mesmo. Estupidez. Eu nunca consegui trair de verdade. No capitulo seguinte, tentei me abrir por inteiro. Me senti traído, nao pelo corpo, isso estava acordado. Mas pela indiferença. Não havia mais amor, só confusão, e me senti menosprezado. A casca dobrou de tamanho, a ponto de sentir que não podia me fechar nem me abrir. Podia ter me aberto pra terapia aqui né? Mas sempre foi coisa de maluco la em casa. Todo mundo me trata estranho ainda. O caminho do meio as vezes é o caminho nenhum, e o problema sempre esteve aqui dentro. Eu perco de vista a pessoa que quero ser quando me sinto ameaçado, e muitos lugares ruins foram revisitados ao longo de três anos. Foi diferente. Meu amor por você é maduro, não tenho mais 19 anos. É o amor de quem queria construir algo, mas sentiu, desde a primeira vez em que a memória ruim foi ativada, sentiu que precisava resolver algo antes. E fiquei com o peito em suspensão. Jurei nunca trair ninguém como aconteceu comigo. Mas também jurei não me culpar por ter um mundo interno, por mais depravado que ele possa parecer as vezes. Ando tentando entender por que ele aparece, por que existe, e por que minha ansiedade desagua tanto na masturbação sem fim. Então esperava que passasse. Fingia não saber. E foi ai que tudo congelou. Não guardo mágoa alguma, eu entendo o que é se sentir inseguro. Mal amado. Não correspondido. Eu entendo. Eu entendo. Eu não queria me fechar, nunca quis. E não posso jurar que não aconteça de novo, e de novo, e de novo - mas posso jurar, pelo menos pra mim mesmo, tentar com todas as forças quebrar esse ciclo. Espero que você quebre o seu, pois sei que suas atitudes não nasceram comigo - afinal, apareceram bem antes de qualquer afastamento - vem também dos traumas passados, e que não consegui acessar. Espero que você entenda também isso, tenho certeza que a luta com seus demônios internos é imensa. Mas não podemos viver de acordo com o que fizeram de nós. Eu tento não, não consigo. Ainda estou trancado, muitas vezes, com 9 anos num quarto com meu primo sobre mim. Meu tio me achando um mentiroso. Ainda estou me escondendo dos meninos atrás da sala de ciências. Cruzo as pernas com orgulho em desafio. Mas não consigo também. Enfim. Não sei pra que escrever tantas cartas que você nunca vai ler. Talvez pra jogar pro universo um desejo de cura, tanto pro mal que te fizeram, tanto pro mal que eu fiz, quanto pro mal que você fez a si mesma. E vice versa. E desejo ficar feliz por você ser capaz de amar. Ei, quem sabe? Ninguém sabe. Sei que, agora, tenho que trabalhar na minha capacidade - de alguém poder confiar em mim, de ser confiável, de ser amável e compreendido. Você tem tudo isso dentro de você também. Tudo é um. Só queria não ter que botar a mão no fogo tantas vezes pra aprender.

sábado, 4 de abril de 2020

Mas eu entendo

Pra sair do buraco

Tenho que ficar pensando merda sobre o relacionamento

Tenho que lembrar que desde o começo rolava controle

Que desde o começo o caminho era o de passar por cima dos meus tempos

E da minha privacidade

Que aos poucos fui ficando tão magoado de fingir que não sabia

Ou que não me sentia controlado

Que fui adoecendo

Que não me sentia eu mesmo na presença de outros

Ou a vontade pra falar o que pensava

Alguém que mostrava o trabalho, orgulhoso, e sentia que a outra cagava

Por ter que pisar em ovos

Ou me sentia abusado

E invadido e violado

Alguém que não merecia confiança

Mesmo sem ter feito nada

E tudo isso são meias verdades.

Eu sei que são, ninguém sabe aonde a cobra morde o rabo.

E eu prefiro lembrar de outras coisas.

Prefiro lembrar de você me abraçando quando eu tinha medo e me sentia arrependido

Prefiro lembrar da sua dancinha sentada na cadeira quando ficava orgulhosa de me mostrar algo

Prefiro lembrar do jeito besta como você sempre avisava os taxis pra parar em cima da hora

Prefiro lembrar de como meu braço ficava dormente com você cochilando nele, e eu não queria te acordar

Prefiro lembrar de tanta coisa

Que afogo a dor

Também na certeza

De ser grato de pelo menos

Ter ouvido um “eu te amo”

Da sua boca tantas vezes -

E tantas vezes

Isso ter sido verdade
Hoje ta foda.

Hoje so consigo pensar

Em como seria melhor

Só cair

Do que esperar

O milagre que não existe