quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Alarme Falso.

Estávamos os três, de novo, sentados naquela mesa de bar. O bar não era o mesmo, mas a mesa era. A mesma de tantas outras terças-feiras: nós três, umas quinze garrafas de cerveja no meio de uma dose ou outra de rum, cinzeiros cheios. Conversávamos, de novo, o de sempre. Como era belo o comunismo, como não dava certo, como era horrível ter vinte anos e não saber nada da vida, como arranjávamos desculpas para não fazer nada. E isso era uma desculpa para nos sentirmos melhores. Ao expor o erro, esse parece sumir; mas não. E não sabemos disso, até hoje.
Foi no auge da conversa que chegaram. Duas figuras sujas, acabadas pela cidade. Um gordo, outro magro, mas não era cômico. Chegaram devagar. "Ei, você...me arranja um cigarro, por favor?", pediu o magro. Carregava um saco de latas, e tragou fundo o cigarro que o da ponta oferecia. Matutou, olhou pra cima, coçou a barba... Não esperávamos a pobreza tão de perto, depois de tanto falar dela.

"Amar é transformar as penas em sorriso...
Amar é transformar o inferno em paraíso...
O amor embala a vida quando é puro,
O amor conduz à morte se é perjuro...
Eu quero ser feliz - serei um dia!
Eu quero ser amado - serei um dia...
Porém, amado com toda sinceridade...
Qur mentira de amor, ah, não é amor, é falsidade..."

Num repente nos presenteia o gordo. Recitou como quem não quer nada, se enfiando pelas cadeiras, mirando o horizonte no fim do balcão. Alguém agradece, oferece uma cerveja. Ele toma com gosto, enquanto o magro tenta lhe puxar pelo braço. "Vambora, é tudo roquêro, eles não gostam disso não...". O gordo respira fundo. "Roquêro? Ouve essa então... Hey Jude, don't be afraid...". Ah, que susto besta! A pronuncia corretíssima, o ritmo conhecido...é uma pena saber mais de Lennon que de Barroso, mas assim é. Ficamos mais animados que com a bela poesia que veio antes. O papo cresceu, e o mendigo já tinha um copo pra si. Descartável, que dono de boteco não é santo, mas tinha. A impaciência do magro crescia a medida que o cigarro ia acabando, e na medida que íamos nos divertindo mais com as pérolas musicais oferecidas pelo mendigo gordo. Até que acaba o cigarro, bituca no chão, ele chama. "Vamo nêgo, vambora".
"Ei, toma esse dinheiro aqui". Eram dois reais. Dois, menos que uma cerveja daquelas. O gordo segurou a nota por uns dez segundos, até que seus olhos se enxeram levemente de lágrimas. Choroso, empurrou a nota de volta na mão branca e macia de meu amigo. "Guarda teu dinheiro, moleque, guarda. Com isso tu compra um pão pra tu que é melhor, que não quero dinheiro não. Tu não sabe como é ruim ficar sem saber da gente. Ninguém olhar pra gente, ninguem falar da gente com a gente sobre a gente, nada...Que eu trabalhando de pedre'ro caí do telhado, e fiquei pra mais de dois dias lá jogado, com as costela quebrada, os ossos tudo doendo, até que alguém foi me ver. Se tu quisé ajudar mesmo, leva uma quentinha amanhã debaixo da marquise do supermercado alí, lá pras oito hora, que é o melhor que tu faz. Tamo lá direto, e comida é qeu é o bom, viu? Guarda teu dinhero, compra um pão e passa lá...". Imagine a cara de idiota dos três ao ouvir essa confissão. O magro abarcou o gordo com um braço, e, consolando-o, foram andando calçada afora. Não sem antes pedir um último cigarro, não sem antes nos lembrar aonde estariam instalados. Pensamos que esse encontro mudaria nossas vidas, que finalmente faríamos algo, que ali, na noite, viviam pessoas tão sensíveis quanto nós, que temos tudo.

Vinte minutos depois, conversávamos com um ex-marinheiro que tomava vodca e trepava com a coroa que vivia no prédio em frente. Nunca levamos a tal quentinha a lugar algum. Nem que não tivessemos levado, mas não fizemos o que ele mais queria.
Não passamos nem pra dizer "Oi".

Nenhum comentário: